9 de maio de 2018

Fugindo do Boko Haram



John Onidie, nigeriano que imigrou
fugindo do Boko Haram

Texto e foto: Mariana Chagas

John Onidie, 34, é nigeriano e veio para o Brasil há cinco anos e, como muitos outros refugiados, chegou clandestinamente através de um navio que fez diversas paradas antes de chegar ao seu destino final. De acordo com seu relato, ele entrou escondido sem saber exatamente para onde estava indo e quando o navio parava em algum lugar, as pessoas que estavam escondidas subiam para conseguir comida. Até que em certo momento, ele resolveu descer do navio, pois havia percebido que estava parado há muito tempo, desembarcando no porto de Santos, São Paulo.

Chegou sem a família, já que não tinha condições suficientes para que pudesse trazê-los junto com ele, mas os deixando numa zona sem risco de morte.

Onidie relata que deixou seu país por questão de segurança. Na época, o grupo terrorista Boko Haram havia invadido a cidade onde ele morava e trabalhava deixando milhares de mortos por onde passavam. Então pensando que poderia ser mais uma vitima do terror, ele pegou somente o básico como roupas e algum dinheiro, e embarcou sem muitas expectativas. Ao chegar, ele explicou para as pessoas do navio sua situação, que lhe indicaram para a ONG Cáritas, em São Paulo. Com o pouco dinheiro que lhe sobrou, entrou em um ônibus diretamente para capital.

Ao chegar, a ONG o recebeu e o mandou para um dos abrigos conveniados e chegou a lhe dar um pouco de dinheiro também para que pudesse comprar roupas e conseguir um emprego.

Antes de surgir o grupo terrorista, Onidie trabalhava como vendedor de sapatos e fazia faculdade de economia, mas não chegou a se formar, pois precisava ajudar sua família. Foi quando saiu de Onitsha, e foi para a região dos lagos, no interior da Nigéria, que lhe ofereceram uma vaga de emprego, com um salário maior. Onidie morou na região dos lagos por mais três anos, até que houve a invasão terrorista e percebeu que não podia mais ficar ali e nem tinha condições de voltar para casa, quando decidiu ir embora.

Onidie sente muita falta da família e sempre que pode manda cartas e dinheiro para eles, mas assim que tiver mais condições pretende trazer todos para o Brasil já que por lá, onde morava, a situação não melhorou para que ele pudesse voltar.

“Mesmo sem entender o que eles falavam, a recepção dos brasileiros foi muito boa, me senti em casa”, contou. Ele diz gostar muito do Brasil, onde as pessoas são muito bonitas e receptivas com quem precisa de ajuda, mesmo já tendo sofridos alguns preconceitos nas ruas, quando falaram que ele estava foragido da polícia no país dele e que venho se abrigar no Brasil pra fugir das suas responsabilidades. “Muita gente gritava comigo achando que eu era surdo apenas por não entender o que estavam dizendo”, contou rindo. “Com tanta atenção que eles me deram tive que aprender o nome das coisas para conseguir comer ou beber um copo de água”. Hoje, mesmo sem ter tido aulas de português como muitos outros refugiados tiveram quando chegaram, Onidie diz que estudou muito sozinho, com livros e com ajuda de amigos que fez.

Sua situação financeira hoje não é das melhores, mas como ele disse, vem crescendo aos poucos. Quando chegou, procurou diversos empregos, mas quando se chega ao Brasil sem dizer algumas palavras em português as chances de se conseguir um emprego digno são mínimas. Ele procurou meses, mas não encontrou nada.

Atualmente ele trabalha fazendo artesanato africano que aprendeu no seu país e os vende no centro da cidade. No Brasil faz muito sucesso já que os brasileiros adoram coisas novas e diferentes. “Artista tem no mundo inteiro então você tem fazer coisas que te diferencie dos outros, que traga mais da sua origem” relatou. Hoje ele mora na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.

No Brasil, Onidie já conhece algumas cidades do interior de São Paulo e o Rio de Janeiro, mas diz querer conhecer muito mais desse país tão “grande e belo”, concluiu.