21 de março de 2018

New Shawarma: de Damasco para o calor do Brás



Por Gabriela Lima

“A alma da vida é o trabalho”, ele diz. “Quando não trabalha, o tempo não passa. Mesmo tendo tudo. Mas se não trabalha, não adianta”.

New Shawarma. Assim é chamado o pequeno negócio de Eyad Abuharb, 26 anos, refugiado e sírio. O carro-forte do restaurante localizado em meio ao comércio da Rua Barão de Ladário, 897, no Brás, centro da capital de São Paulo, é o Shawarma. Típico sanduíche da Síria. Feito com frango, carne, falafel, pasta de alho ou gergelim, tomate, picles e batata-frita. Tudo dentro do pão sírio. Já foi até pauta dos programas Rolê do Chef (Canal TLC), apresentado pelo chef Henrique Fogaça e Encontro com Fátima Bernardes (Rede Gobo). Abuharb é um homem comum. Nunca pensou que sua vida daria uma reportagem. Nem mesmo um perfil. Mas, não é o Shawarma que me chama a atenção. É todo o contexto. Ele não tem medo de nada. “Acredito no que eu faço”, diz. “O Brasil é um país muito fácil de fazer dinheiro. Falta força de vontade”.

Nem tudo eram flores

Eyad Abuharb nasceu em Damasco, onde passou sua infância. Quando menino, já queria ser chef conhecido. Questionado sobre sua paixão pela cozinha, diz que seu avô cozinhava para ele e seus quatro irmãos, Emad, Muhamade, Yaser e Anas. “Eu achava interessante aquilo”. Seu pai, Nabil, diferente do restante da família, vendia carros. Sua mãe, Huda, uma excelente dona de casa. O tio, não menos importante, foi quem o ensinou a fazer os apetitosos Shawarmas.

Abuharb deixou a casa dos pais aos 22 anos. Nessa época, seu país enfrentava uma guerra civil. E então, sem escolha e não sem sofrimento, ele encontrou asilo na Jordânia. Parecia um novo capítulo.

Confiante, ele abriu um restaurante. Tudo caminhando como o planejado. Ele decidiu tirar férias para matar a saudade de sua família na Síria, e já de volta para a Jordânia, foi impedido de entrar no país, onde já tinha recomeçado a vida. Deixou empresa e tudo. Saiu sem pegar nada. Enquanto aguardava seu visto para o Iraque, ficou no Líbano. Nesse período, ficou sabendo do Brasil.

Com tudo em mente, mas sem nenhuma certeza, Eyad pediu também o visto para o Brasil. Em três dias estava pronto. Não foi planejado e nem esperado. Ainda no aeroporto e sozinho, Eyad já simpatizava com o povo brasileiro. “Em qualquer outro país, se você não fala a língua, ficam te zoando. No Brasil não. Querem fazer de tudo para te ajudar”, sorri, com a lembrança do taxista que, usando o Google Tradutor, o deixou no Brás, centro de São Paulo. Em quinze dias conseguiu um emprego, onde ficou por um mês. Entre uma procura e outra, arrumou emprego no restaurante árabe

Seu Chalita, no Itaim Bibi. Trabalhou como assistente de restaurante e morou na casa dos patrões durante um ano e meio, onde aprendeu a falar português em seis meses. “Difícil pra quem não quer aprender, não é?”.

Entusiasmado, Abuharb abriu seu primeiro negócio na capital, na avenida Senador Queirós, que não durou muito, porque o concorrente vendia churrasquinho grego a R$ 3. De volta ao Brás, e sem perder a coragem, abriu um box ao lado do restaurante Ogarett, onde se tornou sócio. Foi quase sucesso. Em meio à crise, o negócio não resistiu. “Todo mundo falou pra eu desistir, pois no Brás já tinham muitos restaurantes, mas minha família sempre me apoiou”. Todo cidadão brasileiro deveria conversar com  Abuharb algum dia. Nunca mais ia ter baixa estima ou preguiça de vencer.  “Eu acredito no meu negócio. Acredito no que eu faço”. De novo, e de novo, ele abriu em outro ponto, um pequeno quiosque. Só que dessa vez, não tinha dinheiro pra comprar os ingredientes. Eyad, sem colocar dificuldade, sempre com fé, foi até o açougue ao lado e pediu 80kg de frango fiado. A promessa era de que quando houvesse um retorno em vendas, ele pagaria tudo. No dia 1º de abril de 2016, dia da inauguração do restaurante, Eyad Abuharb serviu Shawarmas de frango e carne de graça, como tradição de seu país para atrair a freguesia. Batizado de New Shawarma, o empreendimento faz sucesso até hoje, vendendo cerca de duzentos Shawarmas por dia, num precinho a R$ 10.

“Vamo que vamo”, sua frase preferida. Eyad já está arrumando os papéis para abrir outras franquias. Se sentiu acolhido no Brasil e não pensa em sair. “O povo brasileiro não existe igual. Abriu as portas. É muito fácil de conversar e fazer amizade”. O empreendedorismo proporcionou para ele um carro, reconhecimento de grandes chefs e viagens. Ele já visitou o litoral paulista, carioca e catarinense. Ainda sonha em conhecer Amazonas. Mas o principal sonho ele ainda não conquistou: trazer a família para perto.