21 de março de 2018

Cáritas Brasileira: 61 anos de apoio aos refugiados



Por Thiago Alvino
Foto: Divulgação Cáritas
Reconhecida por atuar na gestão de riscos e em situações de emergências, tendo presença solidária e mobilizadora, a Cáritas, organização ligada à Igreja Católica, busca firmar a importância de atuar na perspectiva de defesa de direitos. Nilton Carvalho assessor de comunicação da Cáritas,deixa claro a importância de preparar os refugiados acolhidos pela instituição para o mercado de trabalho, para que venham estar prontos para a primeira oportunidade, sem que haja um choque de cultura. Na entrevista a seguir, ele destaca os maiores desafios que a Cáritas enfrenta na função de integração dos refugiados.

Conexão Foca - O que é ser Cáritas? Por Thiago Alvino
Nilton Carvalho - Ser Cáritas é estar atrelado a um trabalho social.  A Cáritas é uma organização ligada à igreja, que atua em vários países, sempre fazendo um trabalho na área social. Não necessariamente com refugiados, mascom algum trabalho para ajudar as pessoas, sobretudo para que as pessoas tenham acesso a direitos básicos e também por direitos humanos dentro de varias temáticas. Aqui no Brasil, a Cáritas não trabalha só com refúgio. Ela trabalha com reforma agrária,com a população carcerária, população de rua, enfim, ela está em várias frentes. Basicamente, ser Cáritas é trabalhar com questões sociais.


Conexão Foca - Qual é o maior desafio em relação aos refugiados? Como tem sido a luta diária por vidas? 
NC -Primeiro que aqui um dia não é igual o outro. As coisas mudam muito, até porque a gente lida com pessoas de diversos países, com diferentes aspectos culturais e para nós é sempre um aprendizado a cada dia. Quando entrei aqui a gente percebi que o mundo é muito maior do que o que está no nosso contexto social, e como essas pessoas são corajosas para buscar proteção e um recomeço. Pessoas que estavam em situação de violência ou de opressão e perseguição e que não queriam mais passar por aquela situação. Então, elas decidem deixar tudo para trás para recomeçar. Com isso, a gente aprende muito, aprende a enfrentar determinadas situações que eu mesmo não sei se teria coragem.É uma lição de vida.

Conexão Foca - Quais são os tipos de traumas em que as pessoas chegam até a Cáritas e qual o grau de dificuldade em recuperá-las? 
NC -Algumas pessoas chegam e conseguem virar essa página de uma maneira mais fácil do que outras. Depende de pessoa a pessoa. Às vezes [a pessoa] passa por uma situação de violência, mas quando chega ao Brasil sabe que vai precisar se virar sem ter um tempo pra pensar no que passou. Ela vai precisar procurar abrigo, aprender português, começar a trabalhar para ter uma vida mínima aqui no Brasil. Temos um setor de saúde mental e algumas pessoas precisam passar por esse tipo de atendimento. É claro que fica marcado você passar por tortura, ver familiares morrerem e, às vezes, você é a única pessoa que conseguiu se salvar da família. Então, temos um acompanhamento aqui que a nossa psicóloga está inserida dentro de uma rede de saúde mental, tanto publica quanto privada, e mantem parceria com um setor de diversidade do Hospital das Clínicas. Então, a gente consegue encaminhar os casos mais sensíveis em relação a traumas. Muitos dos traumas são em virtude da readaptação cultural, que é difícil e é um choque. Às vezes o sofrimento vem de não conseguir um emprego ou uma criança na escola que é alvo de piadas dos outros colegas por ser de um país diferente.

Conexão Foca - Quem pode ser considerado um refugiado?  
NC -Refugiado é toda aquela pessoa que sofreu uma violência ou tem temor de sofrer uma violência ou perseguição por conta de questões religiosas, políticas, grupo social a qual pertence ou uma situação generalizada de violação de direitos humanos, que são guerras civis como as que acontecem na Síria, por exemplo.

Conexão Foca - Quais são os direitos dos refugiados ?  
NC -Aqui no Brasil a pessoa que chega solicitando refúgio tem os mesmos acessos a serviços básicos que o brasileiro também tem, e para você pedir refugio tem que solicitá-lona Polícia Federal. Lá você recebe um protocolo de solicitação  que já é um documento, e com esse protocolo você emite carteira de trabalho e CPF. Então, enquanto o governo analisa o seu pedido,se tem acesso com a serviços públicos de saúde, educação enfim, qualquer tipo de programa social que existe no país.

Conexão Foca - Milhares de pessoas são obrigadas a deixarem seus lares a força no mundo todo. Como é visto esse alto numero de evasão pela vida e qual o caminho a percorrer para salvar o maior numero delas? 
NC -Registramos um número maior, entre 2014 e 2015. Agora esta estável, mas continuam chegando pessoas, porque continuam acontecendo as diversas crises políticas. São várias situações e contextos culturais e políticos que continuam gerando esse fluxo migratório de refugiados.

Conexão Foca - De onde vem a maior parte desses refugiados? 
NC – A maior parte vem de países que tem problema político mal resolvido, por exemplo Congo e Angola, pois são governos que estão no poder há muito tempo, em torno de 40 anos, e que não têm um processo eleitoral que dê oportunidade para outros partidos concorrerem. Temos também o caso da Síria, que é uma guerra, e outros problemas que vão aparecendo também. A Somália passou recentemente por problemas de grupos armados que entram e tomam uma determinada região. Essa instabilidade civil é o que mais gera fluxos migratórios. 

Conexão Foca - Como é feito o trabalho da Cáritas?
NC - Aqui na Cáritas nós não somos um abrigo. As pessoas passam por aqui para serem encaminhadas para outros serviços. Então, por exemplo, as assistentes sociais encaminham para abrigos públicos e outros que são parceiros, como a Casa do Imigrante. Fora isso, fazemos encaminhamento na integração para curso de português, órgãos que trabalham com encaminhamento para emprego, empresas que fazem trabalho social de recolocação no mercado de trabalho, elaboração de currículo, revalidação de diploma.São vários trabalhos, todos em rede.Não fazemos nada sozinhos.

Conexão Foca - Por quanto tempo um imigrante é acolhido e como é a integração com o mercado de trabalho?
NC - Geralmente a pessoa quando chega ela precisa trabalhar com a primeira oportunidade que aparece, Dificilmente ela vai trabalhar na área dela. Só depois de algum tempo, e se ela conseguir validar o diploma,
que é um caminho longo, ela vai para área de dela. O ideal é elas aceitarem essas outras vagas e depois buscarem a área delas. O que a gente pode dizer é que mesmo assim a gente ouve o senso comum “ah, as pessoas vão vir aqui roubar emprego”. Mas por outro lado, as pessoas que chegam vêm trabalhar aqui e pagam imposto, vem também consumir e trazem vários outros aspectos culturais que são ricos para nossa cultura.O refugio é uma situação diferente da migração.Ela faz a pessoa querer sair por causa de uma violência, então temos que analisar até que ponto viver na miséria não é violência também. É uma coisa para se pensar.