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21 de março de 2018

New Shawarma: de Damasco para o calor do Brás



Por Gabriela Lima

“A alma da vida é o trabalho”, ele diz. “Quando não trabalha, o tempo não passa. Mesmo tendo tudo. Mas se não trabalha, não adianta”.

New Shawarma. Assim é chamado o pequeno negócio de Eyad Abuharb, 26 anos, refugiado e sírio. O carro-forte do restaurante localizado em meio ao comércio da Rua Barão de Ladário, 897, no Brás, centro da capital de São Paulo, é o Shawarma. Típico sanduíche da Síria. Feito com frango, carne, falafel, pasta de alho ou gergelim, tomate, picles e batata-frita. Tudo dentro do pão sírio. Já foi até pauta dos programas Rolê do Chef (Canal TLC), apresentado pelo chef Henrique Fogaça e Encontro com Fátima Bernardes (Rede Gobo). Abuharb é um homem comum. Nunca pensou que sua vida daria uma reportagem. Nem mesmo um perfil. Mas, não é o Shawarma que me chama a atenção. É todo o contexto. Ele não tem medo de nada. “Acredito no que eu faço”, diz. “O Brasil é um país muito fácil de fazer dinheiro. Falta força de vontade”.

Nem tudo eram flores

Eyad Abuharb nasceu em Damasco, onde passou sua infância. Quando menino, já queria ser chef conhecido. Questionado sobre sua paixão pela cozinha, diz que seu avô cozinhava para ele e seus quatro irmãos, Emad, Muhamade, Yaser e Anas. “Eu achava interessante aquilo”. Seu pai, Nabil, diferente do restante da família, vendia carros. Sua mãe, Huda, uma excelente dona de casa. O tio, não menos importante, foi quem o ensinou a fazer os apetitosos Shawarmas.

Abuharb deixou a casa dos pais aos 22 anos. Nessa época, seu país enfrentava uma guerra civil. E então, sem escolha e não sem sofrimento, ele encontrou asilo na Jordânia. Parecia um novo capítulo.

Confiante, ele abriu um restaurante. Tudo caminhando como o planejado. Ele decidiu tirar férias para matar a saudade de sua família na Síria, e já de volta para a Jordânia, foi impedido de entrar no país, onde já tinha recomeçado a vida. Deixou empresa e tudo. Saiu sem pegar nada. Enquanto aguardava seu visto para o Iraque, ficou no Líbano. Nesse período, ficou sabendo do Brasil.

Com tudo em mente, mas sem nenhuma certeza, Eyad pediu também o visto para o Brasil. Em três dias estava pronto. Não foi planejado e nem esperado. Ainda no aeroporto e sozinho, Eyad já simpatizava com o povo brasileiro. “Em qualquer outro país, se você não fala a língua, ficam te zoando. No Brasil não. Querem fazer de tudo para te ajudar”, sorri, com a lembrança do taxista que, usando o Google Tradutor, o deixou no Brás, centro de São Paulo. Em quinze dias conseguiu um emprego, onde ficou por um mês. Entre uma procura e outra, arrumou emprego no restaurante árabe

Seu Chalita, no Itaim Bibi. Trabalhou como assistente de restaurante e morou na casa dos patrões durante um ano e meio, onde aprendeu a falar português em seis meses. “Difícil pra quem não quer aprender, não é?”.

Entusiasmado, Abuharb abriu seu primeiro negócio na capital, na avenida Senador Queirós, que não durou muito, porque o concorrente vendia churrasquinho grego a R$ 3. De volta ao Brás, e sem perder a coragem, abriu um box ao lado do restaurante Ogarett, onde se tornou sócio. Foi quase sucesso. Em meio à crise, o negócio não resistiu. “Todo mundo falou pra eu desistir, pois no Brás já tinham muitos restaurantes, mas minha família sempre me apoiou”. Todo cidadão brasileiro deveria conversar com  Abuharb algum dia. Nunca mais ia ter baixa estima ou preguiça de vencer.  “Eu acredito no meu negócio. Acredito no que eu faço”. De novo, e de novo, ele abriu em outro ponto, um pequeno quiosque. Só que dessa vez, não tinha dinheiro pra comprar os ingredientes. Eyad, sem colocar dificuldade, sempre com fé, foi até o açougue ao lado e pediu 80kg de frango fiado. A promessa era de que quando houvesse um retorno em vendas, ele pagaria tudo. No dia 1º de abril de 2016, dia da inauguração do restaurante, Eyad Abuharb serviu Shawarmas de frango e carne de graça, como tradição de seu país para atrair a freguesia. Batizado de New Shawarma, o empreendimento faz sucesso até hoje, vendendo cerca de duzentos Shawarmas por dia, num precinho a R$ 10.

“Vamo que vamo”, sua frase preferida. Eyad já está arrumando os papéis para abrir outras franquias. Se sentiu acolhido no Brasil e não pensa em sair. “O povo brasileiro não existe igual. Abriu as portas. É muito fácil de conversar e fazer amizade”. O empreendedorismo proporcionou para ele um carro, reconhecimento de grandes chefs e viagens. Ele já visitou o litoral paulista, carioca e catarinense. Ainda sonha em conhecer Amazonas. Mas o principal sonho ele ainda não conquistou: trazer a família para perto.

Um país de todos. Exceto dos brasileiros


Por Jessica Gomes

Falar sobre os refugiados tem se tornado comum no Brasil. As guerras, perseguições religiosas e políticas que vem ocorrendo pelo mundo, estão obrigando pessoas de diferentes nacionalidades a deixar seu país de origem para garantir sua sobrevivência. E o Brasil é visto por muitos como o país do acolhimento. Faz parte da cultura do país acolher bem o estrangeiro. Diferente de alguns países europeus, o governo brasileiro tem facilitado a entrada de refugiados no território. Mas antes de dar a vez a quem vem de fora é necessário se questionar primeiro se o Brasil é dos brasileiros. Antes de favorecer os refugiados, é necessário melhorar as condições de vida dos próprios moradores.

O Brasil já foi “um país de todos”, no antigo governo esse era o slogan utilizado. Até que ponto o Brasil ainda pode ser considerado um país de todos? A grande questão está em querer oferecer ao outro, coisas que seu próprio povo não tem. O governo aproveita momentos assim para demonstrar ao mundo que é um país acolhedor, agradável e amigável. Não que não seja, mas quem está dentro não vê como quem está do outro lado. É inquestionável a essência do brasileiro em acolher. Mas quem está sendo acolhido ultimamente? Esse país que já foi de todos, tem essa fama inclusive, por não restringir a entrada de imigrantes. Quem são as pessoas que buscam mudar de vida?

Há cerca de 9 mil pessoas em situação de refúgio, vivendo no país. São muitos problemas, muitas pessoas e poucas ações. Os refugiados vêm ao Brasil somar com a desigualdade já existente. O problema não são eles. É necessário estruturar a casa para abrigar com dignidade alguém que precisa. Muitas são as necessidades do estrangeiro e o país tem pouco a oferecer. Recentemente o Brasil passou a receber venezuelanos. Acredita-se que até junho de 2017, mais de 3 mil pessoas vindas da Venezuela chegaram a diferentes estados brasileiros devido a crise político-econômica na Venezuela. Essas pessoas estão abandonadas, pois não tem por onde recomeçar.

Nos dois últimos anos o número de pessoas em situação de pobreza aumentou no Brasil. É considerado pobre no país pessoas que possuem a renda familiar per capita abaixo de R$ 230,00 por mês, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A crise econômica tem contribuído para essa condição, pois muitas pessoas depois de perderem o emprego, não possuem condições básicas de vida. Com os estrangeiros nesse contexto de refúgio não é diferente.

Para os brasileiros falta água, saneamento básico, saúde, segurança, educação, entre tantas coisas. E os refugiados? Saem em busca de uma nova vida e muitas vezes ficam em situação igual ou semelhante a que viviam, porém sem guerras, perseguições e talvez seja por este motivo que desejam permanecer. Não há condições de vida nem para os brasileiros, que dirá para os refugiados.

O governo brasileiro precisa mudar as políticas públicas antes de continuar recebendo refugiados. Somente nos primeiros 5 meses de 2017, o Brasil recebeu 10.507 pedidos de refúgio. As leis brasileiras não acompanham o crescimento da população e consequentemente não conseguem acompanhar o aumento de estrangeiros. Dessa forma acabam brasileiros e refugiados com as mesmas dificuldades. A população brasileira precisa ser valorizada social e economicamente e deve ser colocada sempre em primeiro lugar.

Cáritas Brasileira: 61 anos de apoio aos refugiados



Por Thiago Alvino
Foto: Divulgação Cáritas
Reconhecida por atuar na gestão de riscos e em situações de emergências, tendo presença solidária e mobilizadora, a Cáritas, organização ligada à Igreja Católica, busca firmar a importância de atuar na perspectiva de defesa de direitos. Nilton Carvalho assessor de comunicação da Cáritas,deixa claro a importância de preparar os refugiados acolhidos pela instituição para o mercado de trabalho, para que venham estar prontos para a primeira oportunidade, sem que haja um choque de cultura. Na entrevista a seguir, ele destaca os maiores desafios que a Cáritas enfrenta na função de integração dos refugiados.

Conexão Foca - O que é ser Cáritas? Por Thiago Alvino
Nilton Carvalho - Ser Cáritas é estar atrelado a um trabalho social.  A Cáritas é uma organização ligada à igreja, que atua em vários países, sempre fazendo um trabalho na área social. Não necessariamente com refugiados, mascom algum trabalho para ajudar as pessoas, sobretudo para que as pessoas tenham acesso a direitos básicos e também por direitos humanos dentro de varias temáticas. Aqui no Brasil, a Cáritas não trabalha só com refúgio. Ela trabalha com reforma agrária,com a população carcerária, população de rua, enfim, ela está em várias frentes. Basicamente, ser Cáritas é trabalhar com questões sociais.


Conexão Foca - Qual é o maior desafio em relação aos refugiados? Como tem sido a luta diária por vidas? 
NC -Primeiro que aqui um dia não é igual o outro. As coisas mudam muito, até porque a gente lida com pessoas de diversos países, com diferentes aspectos culturais e para nós é sempre um aprendizado a cada dia. Quando entrei aqui a gente percebi que o mundo é muito maior do que o que está no nosso contexto social, e como essas pessoas são corajosas para buscar proteção e um recomeço. Pessoas que estavam em situação de violência ou de opressão e perseguição e que não queriam mais passar por aquela situação. Então, elas decidem deixar tudo para trás para recomeçar. Com isso, a gente aprende muito, aprende a enfrentar determinadas situações que eu mesmo não sei se teria coragem.É uma lição de vida.

Conexão Foca - Quais são os tipos de traumas em que as pessoas chegam até a Cáritas e qual o grau de dificuldade em recuperá-las? 
NC -Algumas pessoas chegam e conseguem virar essa página de uma maneira mais fácil do que outras. Depende de pessoa a pessoa. Às vezes [a pessoa] passa por uma situação de violência, mas quando chega ao Brasil sabe que vai precisar se virar sem ter um tempo pra pensar no que passou. Ela vai precisar procurar abrigo, aprender português, começar a trabalhar para ter uma vida mínima aqui no Brasil. Temos um setor de saúde mental e algumas pessoas precisam passar por esse tipo de atendimento. É claro que fica marcado você passar por tortura, ver familiares morrerem e, às vezes, você é a única pessoa que conseguiu se salvar da família. Então, temos um acompanhamento aqui que a nossa psicóloga está inserida dentro de uma rede de saúde mental, tanto publica quanto privada, e mantem parceria com um setor de diversidade do Hospital das Clínicas. Então, a gente consegue encaminhar os casos mais sensíveis em relação a traumas. Muitos dos traumas são em virtude da readaptação cultural, que é difícil e é um choque. Às vezes o sofrimento vem de não conseguir um emprego ou uma criança na escola que é alvo de piadas dos outros colegas por ser de um país diferente.

Conexão Foca - Quem pode ser considerado um refugiado?  
NC -Refugiado é toda aquela pessoa que sofreu uma violência ou tem temor de sofrer uma violência ou perseguição por conta de questões religiosas, políticas, grupo social a qual pertence ou uma situação generalizada de violação de direitos humanos, que são guerras civis como as que acontecem na Síria, por exemplo.

Conexão Foca - Quais são os direitos dos refugiados ?  
NC -Aqui no Brasil a pessoa que chega solicitando refúgio tem os mesmos acessos a serviços básicos que o brasileiro também tem, e para você pedir refugio tem que solicitá-lona Polícia Federal. Lá você recebe um protocolo de solicitação  que já é um documento, e com esse protocolo você emite carteira de trabalho e CPF. Então, enquanto o governo analisa o seu pedido,se tem acesso com a serviços públicos de saúde, educação enfim, qualquer tipo de programa social que existe no país.

Conexão Foca - Milhares de pessoas são obrigadas a deixarem seus lares a força no mundo todo. Como é visto esse alto numero de evasão pela vida e qual o caminho a percorrer para salvar o maior numero delas? 
NC -Registramos um número maior, entre 2014 e 2015. Agora esta estável, mas continuam chegando pessoas, porque continuam acontecendo as diversas crises políticas. São várias situações e contextos culturais e políticos que continuam gerando esse fluxo migratório de refugiados.

Conexão Foca - De onde vem a maior parte desses refugiados? 
NC – A maior parte vem de países que tem problema político mal resolvido, por exemplo Congo e Angola, pois são governos que estão no poder há muito tempo, em torno de 40 anos, e que não têm um processo eleitoral que dê oportunidade para outros partidos concorrerem. Temos também o caso da Síria, que é uma guerra, e outros problemas que vão aparecendo também. A Somália passou recentemente por problemas de grupos armados que entram e tomam uma determinada região. Essa instabilidade civil é o que mais gera fluxos migratórios. 

Conexão Foca - Como é feito o trabalho da Cáritas?
NC - Aqui na Cáritas nós não somos um abrigo. As pessoas passam por aqui para serem encaminhadas para outros serviços. Então, por exemplo, as assistentes sociais encaminham para abrigos públicos e outros que são parceiros, como a Casa do Imigrante. Fora isso, fazemos encaminhamento na integração para curso de português, órgãos que trabalham com encaminhamento para emprego, empresas que fazem trabalho social de recolocação no mercado de trabalho, elaboração de currículo, revalidação de diploma.São vários trabalhos, todos em rede.Não fazemos nada sozinhos.

Conexão Foca - Por quanto tempo um imigrante é acolhido e como é a integração com o mercado de trabalho?
NC - Geralmente a pessoa quando chega ela precisa trabalhar com a primeira oportunidade que aparece, Dificilmente ela vai trabalhar na área dela. Só depois de algum tempo, e se ela conseguir validar o diploma,
que é um caminho longo, ela vai para área de dela. O ideal é elas aceitarem essas outras vagas e depois buscarem a área delas. O que a gente pode dizer é que mesmo assim a gente ouve o senso comum “ah, as pessoas vão vir aqui roubar emprego”. Mas por outro lado, as pessoas que chegam vêm trabalhar aqui e pagam imposto, vem também consumir e trazem vários outros aspectos culturais que são ricos para nossa cultura.O refugio é uma situação diferente da migração.Ela faz a pessoa querer sair por causa de uma violência, então temos que analisar até que ponto viver na miséria não é violência também. É uma coisa para se pensar.

O Brasil dos refugiados




Por Rafael Ponciano
Foto: Paula Matuyama

Desde 2010 o Brasil recebe refugiados de diversas partes do mundo. O número inicial de migração chegou ser de 966 mil pessoas, em sua maioria oriunda de países em condições de conflitos militares, como a Síria.

Diante dessa perspectiva de aumento contínuo, alguns grupos de brasileiros tem se posicionado contra as políticas públicas de acolhimento aos refugiados, o Brasil tem um histórico de receber pessoas de diversos países, entretanto nos últimos anos esse fato tem gerado uma onda de intolerância.

O caso mais recente foi em agosto de 2017. Mohamed Ali, de 23 anos, um refugiado Sírio, que saiu de seu país em conflito para tentar uma vida nova no Brasil vendendo esfihas na Av. Nossa Senhora de Copacabana no Rio de Janeiro.

Todos os dias o Sírio vendia suas esfihas como forma de manter-se financeiramente em solo brasileiro, quando foi vítima de xenofobia por um brasileiro que o agrediu verbalmente, disparando um discurso preconceituoso, dizendo que o país não era dele e que deveria ir embora. Um cinegrafista amador gravou o momento de ofensas. O vídeo ganhou a internet e repercutiu mundo afora, o fato abriu um questionamento importante sobre a tradição de sermos vistos como um país acolhedor.

Mesmo com casos como este, o Brasil não deixou de receber novos refugiados, e tem recebido vários imigrantes, criando um clima propicio a xenofobia no país.

Em uma entrevista ao Portal R7, o representante da ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados disse: “O Brasil é acolhedor, mas ainda falta estrutura.”. De fato, não estamos na linha maior de desenvolvimento humano, tanto que os dados divulgados pelo órgão mostram que os países ricos acolhem apenas 14% dos refugiados enquanto os 86% restantes são acolhidos pelos países em desenvolvimento.

A questão política de refugiados não é discutido no Congresso Brasileiro. O Brasil é um país criado a partir da miscigenação de diversos povos, o acervo cultural é rico, repleto de influências de vários pontos do mundo. Esse ambiente diverso e alegre cria condições para que os refugiados desenvolvam suas vidas no país.

Apesar da xenofobia e de outros problemas inerentes à condição dos refugiados, diversas iniciativas públicas e privadas trazem ares de solidariedade tornando esse recomeço mais digno e humanizado.
A sociedade brasileira vem debatendo a questão da inserção dos refugiados. Recentemente em um encontro no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, a ACNUR mostrou exemplos de como o setor privado no Brasil pode oferecer oportunidades e soluções para a proteção de refugiados com diversos projetos de integração na sociedade. Assim como esse projeto, instituições privadas como Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e Serviço Social do Comércio (SESC) têm uma parceria para ajudar os refugiados com programas de educação há 10 anos. Ambos se unem para oferecer cursos de português, ações socioculturais, atividades de reflexão sobre o universo do refúgio, entre outros serviços.

O Brasil está se mostrando receptivo para todos que precisam desse refugio. O papel do brasileiro é fazer com que esse acolhimento amistoso seja uma nova perspectiva de vida para essas pessoas, o recomeço.

A nova realidade do refugiado no Brasil



Por Camila Lopes e Lucas de Souza  
Foto: Mayara da Silva

O crescimento desproporcional de conflitos em países que vivem guerras civis como os do Oriente Médio e a África intensificou o número de pessoas que se deslocam desses lugares procurando refúgio, muitas vezes em outros continentes, em busca de uma vida com mais segurança e perspectiva de futuro. 

Segundo a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), são considerados refugiados “pessoas que estão fora de seus países de origem por fundados temores de perseguição, conflito, violência ou outras circunstâncias que perturbam seriamente a ordem pública e que, como resultado, necessitam de ‘proteção internacional’”.

Brasil
Segundo dados do CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados) em pesquisa realizada em 2016, o número de refugiados reconhecidos no país aumentou 12% em 2016, chegando ao total de 9.552 pessoas de 82 nacionalidades. Desse total, 8.522 foram reconhecidos por vias tradicionais de elegibilidade, 713 chegaram ao Brasil por meio de reassentamento e 317 foram estendidos os efeitos da condição de refugiado de algum familiar. Os países com maior número de refugiados reconhecidos no Brasil em 2016 foram Síria (326), República Democrática do Congo (189), Paquistão (98), Palestina (57) e Angola (26).

Os pedidos de refúgio, segundo o órgão, caíram 64% em 2016, comparado ao ano de 2015, principalmente em decorrência da diminuição das solicitações de haitianos que preocupados com a situação econômica do Brasil, estão procurando refúgio em países economicamente mais desenvolvidos como os Estados Unidos.

Apesar da diminuição no número de solicitações, houve um aumento expressivo de 307% nas solicitações de venezuelanos em relação a 2015 devido à grave crise política e econômica que estão enfrentando no país. Estima-se que 30 mil venezuelanos estão em situação irregular no Brasil.
Atualmente, os países com maior número de solicitantes de refúgio no Brasil em 2016 foram Venezuela (3.375), Cuba (1.370), Angola (1.353), Haiti (646) e Síria (391). Desde o início do conflito na Síria, 3.772 sírios solicitaram refúgio no Brasil.

Acolhimento
Os motivos que levam pessoas a se refugiarem são diversos e a miséria não é o único deles. O processo de deslocamento para outros continentes, ainda mais na América do Sul – o mais distante das principais áreas de conflitos – custa caro e não é fácil de conseguir fazê-lo, conforme afirma Mateus Lima, coordenador de voluntariado na ONG Adus (Instituto de Reintegração de Refugiados – Brasil) e pesquisador científico sobre o tema.

A escolha do Brasil como país de refúgio não é algo aleatório, visto que os refugiados buscam países em desenvolvimento como ferramenta capaz de oferecer soluções para crises de deslocamento forçado, conforme relatório publicado pelo Banco Mundial divulgado no ano passado.

Outro ponto importante é o acolhimento que o brasileiro oferece. Para Mateus Lima, que lida diariamente com refugiados de todos os lugares do mundo derivados de diversas situações, apesar de o Governo deixar a desejar em alguns pontos quanto a sua politica para refugiados, os cidadãos pesam nessa balança por sua fama de acolhedores e receptíveis. “Eles sempre falam que o brasileiro é acolhedor. Eles falam que o povo brasileiro como pessoa é acolhedor, mas o Governo e Estado não apoiam de fato. O brasileiro pessoa é super receptível, gentil, faz aquela ajuda pontual, só que o Estado não faz a parte que deveria fazer com mais ênfase. Não digo que o Estado não faz nada, mas ele tenta fazer. Existem muitos programas do Governo para inserção dos refugiados mas isso não supre a demanda e não tem o alcance”, afirma Lima.
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A educadora e especialista em estudos geográficos, Helena Vargas, acredita que o Brasil tem protagonizado a reconstrução da história de milhares de refugiados e ressalta que a grande procura ao país é pela adesão nacional a tratados internacionais, que facilitam o registro de status sem muitas exigências. 

Embora a capacidade brasileira de recepção de refugiados seja reduzida pela distância, a ações brasileiras amparadas no princípio da solidariedade internacional, Helena afirma: “Como um país distante das zonas de conflitos e de segundo acolhimento, nossa recepção com refugiados é digna de louvor e serve como exemplo para outros países”.

Perfil
Em sua maioria, são homens de 25 a 35 anos que buscam a estabilidade aqui para enviar dinheiro à sua família ou buscar a reintegração deles aqui no Brasil. Não existe um padrão, visto que nem todos os refugiados vêm ao Brasil por conta da miséria: muitos deles são financeiramente estáveis - visto o alto custo da viagem até outro continente. Suas profissões variam de médico, advogado, contador, professor até motorista ou pedreiro.

São Paulo
A maior metrópole do país e seu centro são cenários presentes no início da nova vida de um refugiado. Para solicitar o refúgio, é necessário comparecer a Policia Federal Brasileira. Assim que realizado, é gerado um protocolo de permanência provisório até que a análise de sua solicitação e permanência no país seja aprovada ou não. Com o protocolo provisório, é possível tirar documentos como Carteira de Trabalho e CPF. Além da documentação existem, ONGs e associações que apoiam e integram o refugiado à sociedade, oferecendo a eles assistência na retirada de documentação, ingresso ao mercado de trabalho e aprendizagem da língua portuguesa.

Refugiados

Nos últimos anos, nos deparamos com diversos processos de imigração de refugiados para as principais capitais e cidades do mundo, e também, do nosso país. Essa ação pode ser vista como uma tentativa de alcançar a paz, a prosperidade, oportunidade de trabalho e diversos outros fatores que essas pessoas não têm em seu país de origem. Porém, o que vemos é ainda um preconceito generalizado a respeito dessas pessoas, muitas das vezes causadas por falta de conhecimento.

Nosso objetivo, nesta edição de Conexão Foca, é mostrar um perfil dos refugiados, contar sobre seus dramas, como são acolhidos e a experiência que adquiriram com a difícil situação que o destino colocou diante de suas vidas.

Nas páginas a seguir, você encontrará artigos voltados para a realidade dos refugiados, conhecerá o trabalho de ONG’s que trabalham para a inclusão dessas pessoas dentro da nossa sociedade, e poderá ler entrevistas com líderes de instituições que visam uma melhoria na vida dos refugiados.

Por meio de especialistas e das próprias pessoas que vivem essa realidade, buscamos mostrar para nossos leitores o dia-a- dia desses imigrantes.

Acreditamos que é necessário olhar para a história dessas pessoas que chegam ao nosso país, para entender o drama por trás de suas vidas e compreender, de maneira mais sensível, a difícil situação de refúgio.

O jornalismo, meio profissional que nos motivou a escolher uma carreira, é a forma que escolhemos para demonstrar essa difícil realidade. Esperamos que você, leitor, embarque conosco nos meandros dessa instigante
descoberta.

Tenham todos uma boa leitura!

14 de março de 2018

Professora discute falta de investimento na periferia


Por Leonargo Argentoni e Lucas Freitas

No Brasil de 2017, com escândalos de corrupção, violência e outros vários problemas que já nos parecem crônicos, um ainda assusta muito, apesar de pouco divulgado: a desigualdade do ensino para alunos ricos e os menos abastados. As escolas de periferia ainda sofrem com falta de investimento e falta de acesso em cultura, espaços sociais e até mesmo educação. A falta de valorização da cultura existente dentro das próprias comunidades também assusta.


Para discorrer sobre o tema, Conexão Foca ouviu a professora Maria Isabel Ramalho Ortigão, professora-adjunto da Faculdade de Educação da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e autora de diversas pesquisas, estudos e livros, com destaque para ‘Educação nas periferias urbanas’, base de nossa conversa com a estudiosa, que tem opinião formada e direta sobre a carência do ensino nas comunidades: “Educação pública, laica, de qualidade. Esse sim deveria ser o grande investimento público.”

Sobre os desafios que os estudantes pertencentes a famílias mais abastadas se comparados a estudantes que pertencem a famílias de maior poder aquisitivo a professora é categórica: “Ter menos recursos econômicos não significa ter menos condições intelectuais, culturais ou sociais”. Então por que tanta desigualdade? “Muitas vezes as periferias bem menos acesso aos bens culturais”.

As periferias, mais especificamente, as comunidades carentes do Rio de Janeiro, possuem cultura própria, aquela passada de geração em geração e que, quando inserida no ambiente de ensino, acaba sendo mal interpretada, o que na avaliação da estudiosa é um erro. Para a professora Isabel, a cultura presente dentro das comunidades podem e devem ser valorizadas dentro das escolas, assim como deve-se investidor no acesso aos bens culturais oferecidos aos estudantes com mais dinheiro. “O sistema é carente de investimento em educação de qualidade. Valorizar as culturas das pessoas que residem nas periferias é importante também,” conclui.