18 de dezembro de 2017

Sacolinha: revitalizando a quebrada


Divulgação

Por Laura Luz e Kadyje Barakat
Ademiro Alvez de Souza, mais conhecido como Sacolinha, ganhou esse apelido após começar a trabalhar no metrô, aos nove anos de idade. De lá para cá, muita coisa mudou em sua vida, tendo virado escritor e artista, representante da periferia, e porta-voz de um tipo de arte que até há algumas décadas, era discriminada na cidade de São Paulo. Conexão Foca bateu um papo com o escritor, que contou um pouco da sua história, da sua luta, e do seu trabalho.

Conexão Foca - Quem é você, além do Sacolinha, escritor, poeta e professor?

Sacolinha - Minha avó perguntava para mim: “Você é um homem ou um saco de batata?” Eu cresci com medo de ser um saco de batata. Eu pensava: “Ser homem é melhor do que ser um saco de batata”. Na concepção da minha avó, ser homem era ser algo útil. Hoje eu sou algo útil.


Conexão Foca - Como foi seu primeiro contato com a Literatura?

Sacolinha - Eu comecei a ler com 18 anos. Meu primeiro livro foi a Carteira de Trabalho. Comecei a ler no trem, para passar o tempo. Nesse mesmo dia eu passei por uma abordagem policial. Eles pediram meu RG e eu lembrei que estava sem. Eu tinha lido que a Carteira de Trabalho era um documento e substituía o RG. Eles consultaram minha ficha e me liberaram. Desse dia em diante eu decidi nunca mais parar de ler. Através dessa informação que eu adquiri, eu percebi que a leitura salva e ela poderia me salvar de vários outros dias. Foi a melhor coisa que eu fiz. Eu só sou o que sou hoje graças à leitura, graças aos livros.  Depois, em 2003, eu conheci a Carolina Maria de Jesus. Era uma época que a gente tinha vergonha de morar na periferia, tinha vergonha de entregar currículo com o nosso endereço. E eu comecei a escrever.

Conexão Foca - Quando foi que você percebeu que escrevia, que era algo que você gostava? De que forma isso te motivou a continuar?

Sacolinha - Na verdade, foi uma necessidade. Eu sustentava uma família de 11 pessoas, com 15 reais por dia, trabalhando como cobrador de lotação. Eu estava lendo quatro livros por semana, não tinha com quem conversar. Meus amigos corriam de mim. Eu era o chato da minha rua, porque eu queria falar de poesia, queria falar de livros. E tudo isso começou a acumular na minha cabeça, estava para explodir. A leitura me mostrou que eu podia explodir de forma poética, na escrita. E comecei a escrever. Colocava tudo aquilo que eu tinha na cabeça, no papel. Comecei a ganhar o respeito dos meus amigos. Eu comecei a escrever letras de rap e de samba. Eles estavam na esquina, fumando maconha. Usavam a caixinha de fósforo para acender o baseado. Eu chegava dizendo “estou com uma letra de samba aqui”. Eles começavam a batucar, se empolgavam com aquilo que eu escrevia. E eu comecei a ganhar o respeito. E da mesma forma que aconteceu com a leitura, aconteceu com a escrita. Eu pensei: “Escrever é bom! Me alivia, me faz ganhar respeito”, e foi assim que aconteceu.

Conexão Foca - Como sua família viu tudo isso?

Sacolinha - Era: “ah, está escrevendo, não está fazendo nada de errado. Mas isso ai não dá dinheiro, não dá futuro”. Na minha família tem um padre, meu tio. Eu pegava uns livros dele escondido, sem ele saber, para eu ler. O único orgulho da minha família era ele. Até o momento que eu publiquei um livro, que me viram na televisão, dando aula em universidade.

Conexão Foca - Por ser um homem, de periferia e escrever, existiu ou ainda existe alguma situação de preconceito? 

Sacolinha - Agora não mais. Entre 2002 fui chamado de “veado” inúmeras vezes. Aquela época não existia empoderamento. Claro que eu estava sendo empoderado pelos livros, mas para gente ser chamado de “veado” era algo muito ruim, tinha gente que não sabia lidar com isso.  Você negro, morador de periferia, pobre, ou você cantava pagode ou jogava futebol. Imagina o quanto eu não sofria no meio dos meus amigos, não é? Imagine como eu me senti quando comecei a ganhar o respeito dos meus amigos com os textos que eu escrevia. É irônico falar isso, porque muito desses amigos que corriam de mim, me chamavam de “veado” quando eu queria falar de poesia, muitos deles eu encontrei nas cadeias quando eu ia dar oficina de poesia. E quando eu chegava lá e via um ou outro preso, perguntava para mim mesmo: “E agora? Será que agora eu posso falar de poesia?”, porque poderia ser diferente. Poderia ser eu lá, junto com eles. Já dei aula para Fernandinho Beira-mar, Marcola, Elias Maluco. Ao invés de estar dando aula para esses caras de literatura, de poesia, era para eu estar lá junto com eles, preso, se eu tivesse dado ouvido aos meus amigos e pegado em uma arma. A leitura me mostrou isso. Hoje a gente fala muito de empoderamento. Empoderamento masculino, feminino, negro. Em 2002 eu estava me empoderando na periferia de Suzano.

Conexão Foca - No meio de tudo isso, quando você decidiu escrever o primeiro livro? Quais as maiores dificuldades enfrentadas?

Sacolinha - Foi tudo natural. Não foi decisão. O meu primeiro livro, nem era para ser um livro. Fui escrever um conto chamado “Graduado em Marginalidade”. Comecei a escrever em 2004, porque até aquele momento eu já tinha escrito poesia, frases, rap, samba. Eu queria me aventurar no mundo da prosa. Comecei a escrever esse conto, mais por inexperiência literária, porque até aquele momento eu não tinha escrito nada em prosa. Esse conto foi recebendo personagens, cenas, conflitos, foi crescendo e acabou virando um romance. Eu estava empolgado com a escrita do primeiro livro, comecei a mandar para várias editoras, até perceber que eu não seria publicado porque era um autor novo e autor novo não dá dinheiro para editora. Então resolvi publicar com dinheiro do meu próprio bolso. Comecei a vender rifa, fiz show de rap em prol do livro, e consegui metade do valor para publicar 500 exemplares, mas só vendi 48. Para mim era pouco, porque em 15 dias eu tinha uma segunda parcela para pagar para a editora. Depois desse lançamento, eu coloquei meus livros na mochila e fui vender no centro de São Paulo, nos bares da Vila Madalena, Pinheiros. Eu demorei dois meses para vender o primeiro livro. Levei muitos nãos. Mas depois meu nome começou a ficar conhecido. Foi assim a saga do primeiro livro.

Conexão Foca - Como foi sua participação na Cooperifa? Qual a importância desse projeto para você?

Sacolinha - Eu tenho uma amizade com o Sergio Vaz antes da Cooperifa. Eu trocava cartas com ele, Alessandro Buzo e a turma do Fanzine. Ele começou a fazer o Sarau da Cooperifa. Em 2003, ele me chamou para participar de uma edição especial que foi feita na Câmara dos Vereadores, em São Paulo. Eu fui participar como convidado e acabei gostando do que vi. Acabei participando outras vezes lá em Piraporinha. Quando publiquei meu primeiro livro, fiz um lançamento lá também. Comecei a fazer um sarau em Suzano, inspirado na Cooperifa, o “Pavio da Cultura”, feito na secretaria de Cultura. A Cooperifa foi o pontapé, a inspiração para desenvolver esse projeto. Depois, começamos a desenvolver o Sarau Literatura Nossa, sem envolvimento da prefeitura.

Conexão Foca - Quais suas inspirações?

Sacolinha - Eu me inspiro na minha horta, que tenho no fundo do meu quintal. Eu faço caminhada no bairro, eu gosto de ver o povo levantando, gosto de ver o cachorro furando os sacos de lixo na rua. Isso me dá inspiração. Às vezes. me falta inspiração e eu vou caminhar. Os livros são inspirações, a leitura nunca me abandona.

Conexão Foca - Você conhece pessoas que foram diretamente sensibilizadas pelo seu trabalho? Que escrevem e/ou leem por conta do que você faz?

Sacolinha - Tenho muitos exemplos. Eu desenvolvo pelo menos uma palestra por semana em escola pública. Eu vou lá porque quero mudar vidas, salvar vidas. Em toda palestra tive êxito, eu plantei. Eu cito em meu livro, em especial, duas pessoas. O Mano Caquis, poeta que mora na cidade de Suzano, que passou 19 anos usando drogas e ficava largado na praça do centro. Ele sempre rascunhava alguma coisa e ninguém dava valor. Teve um dia que meu primeiro livro caiu nas mãos dele. Ele leu aquilo e não acreditou. A forma como ele descreve é igual ao que aconteceu comigo, quando eu conheci Carolina Maria de Jesus. Ele não acreditou que alguém parecido com ele, negro, morador de periferia, tinha escrito aquilo. Em 2006, ele foi me conhecer, e foi bem no momento em que estávamos realizando o Primeiro Concurso Literário de Suzano. Eu o convidei para participar e ele ficou em sétimo lugar. O fato de ter lido o “Graduado em Marginalidade” deu uma empolgação para ele me conhecer também. Participou do concurso e isso deu a ele o que precisava para sair das drogas. Não só saiu das drogas como publicou seu primeiro livro, e coordenou um espaço cultural que eu inaugurei no meu bairro. Tem um projeto que eu desenvolvo chamado Literatura e Paisagismo – Revitalizando a Quebrada. Comecei no meu bairro, pintando muro, escrevendo poesia. Esses dias eu recebi uma mensagem de uma mulher que tem depressão. Ela disse que estava indo para a faculdade, mas estava em um momento de recaída, e ela viu uma frase minha no muro: “O sol sempre foi sol, a gente é que anoitece”. E ela disse que se animou de uma tal maneira, disse que todas as vezes que fica desanimada, lembrava dessa frase. Eu ganho quando vejo um moleque ler uma poesia.