18 de dezembro de 2017

Ferréz: colado na realidade do Capão


foto: Felipe Silvatti

Por Felipe Silvatti

Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Uma busca no Google mostra, ainda na primeira página, duas notícias sobre o distrito pertencente à subprefeitura do Campo Limpo: uma, de 2016, afirma que o bairro é o mais violento da cidade de São Paulo; outra, de 2013, que o Capão é um dos lugares mais cinzas da metrópole.

O bairro ficou famoso principalmente pelas letras dos Racionais MCs. Não apenas o rap levou o Capão Redondo a ser falado e cantado por todo o Brasil. O nome do bairro também está no título do primeiro romance do escritor Ferréz, “Capão Pecado”, lançado em 2000.

Não é nenhum exagero dizer que “Capão Pecado” é um sucesso. Em um país de leitores escassos, e em que com uma vendagem de 15.000 cópias as obras já ganham o selo de best seller, o romance vendeu pouco mais de 100 mil cópias, segundo Ferréz.

Não se trata, porém, de um golpe de sorte de um autor que estourou no seu primeiro romance. Ferréz construiu a narrativa por cerca de quatro anos, anotando ideias que surgiam em momentos aleatórios. Hábito, aliás, que mantém até hoje. Enquanto conversa comigo, às vezes pede licença para anotar alguma frase em seu celular. “O livro é como um quebra-cabeça. Você tem que ir juntando as peças e guardando. Essa peça pode não fazer sentido agora, mas uma hora vai aparecer onde ela se encaixa”.

Enquanto escrevia a história de Rael, um adolescente do Capão Redondo que se apaixona pela namorada do amigo, Ferréz se sustentava com os empregos que apareciam: chapeiro de rede de fast-food, balconista de padaria, auxiliar de construção, entre outros.

Com o livro finalizado, Ferréz procurou ajuda para conseguir uma editora. Deixou alguns trechos do livro com amigos de grupos de rap. Alguns destes trechos foram parar nas mãos do repórter Ivan Finotti, da Folha de São Paulo. Finotti gostou do que leu, e entrou em contato para pedir o livro todo. O escritor respondeu que não tinha. Estava desempregado e sem dinheiro para bancar a impressão. Finotti teve que se virar para arrumar folhas de sulfite e tinta.

Em 06 de janeiro de 2000, Ferréz apareceu na capa da Ilustrada. “Muita gente aqui no bairro achou que eu tinha morrido, porque aqui o pessoal só aparece no jornal quando morre”. Ivan Finotti fez uma matéria sobre o livro, ainda não lançado e sem contrato com editora. A matéria ajudou. Ferréz recebeu propostas de várias editoras, algumas renomadas. A menor e mais nova foi a escolhida para lançar “Capão Pecado”.

O escritor nunca saberá ao certo quantas cópias foram vendidas pela Labortexto. “Foram trinta mil cópias, mas isso foi um juiz que determinou. A editora não me pagou. Tive que entrar na justiça. O livro estava vendendo bem, eu tinha a fama, dava entrevista no Jô Soares, mas não tinha um real no bolso. Tive que começar tudo de novo”.

Ferréz é o codinome de Reginaldo Ferreira da Silva, 42 anos. É um homem grande e corpulento, o que contrasta com sua fala calma e paciente. Nos encontramos na ONG Interferência, fundada pelo escritor em 2009, no Jardim Inah, no próprio Capão Redondo. A ONG atende crianças de 06 a 16 anos. Oferece oficinas e atividades que envolvem literatura e manifestações culturais brasileiras, como a capoeira, o maculelê, o samba de roda. É o primeiro espaço a oferecer educação não formal para as crianças da região.

O primeiro livro de Ferréz, antes de Capão Pecado, foi “Fortaleza da Desilusão”, de poesias, lançado em 1997. “Esse eu nem fui atrás de editora, foi o pessoal do meu trampo que bancou a edição. E logo depois do lançamento me mandaram embora. Falaram que eu era um bom escritor, mas um péssimo funcionário”.

“Manual prático do ódio”, lançado em 2003, consolidou a carreira do escritor. A crítica apontou uma evolução na técnica narrativa de Ferréz. O livro foi traduzido em vários idiomas e lançado em mais de 30 países. O escritor viajou para vários desses lugares para dar palestras. “Isso é um retorno legal que a literatura me deu. Não me deu grana, mas me deu a oportunidade de viajar para lugares onde eu nunca iria”. A vendagem, no entanto, não passou nem perto da alcançada pelo primeiro romance. “Isso aí é assim mesmo. Fica quem é pra ficar, quem gosta mesmo da sua literatura. Quando a moda passa ficam os verdadeiros.”

De lá para cá Ferréz já lançou livro infantil, revista em quadrinhos, CD de rap, CD de poesias recitadas, livro de contos e mais um romance, “Deus foi almoçar”, lançado em 2012.

Quando pergunto qual sua maior influência na literatura brasileira, responde sem hesitar: “Minha maior influência é o rap. E os quadrinhos. Lourenço Mutarelli.” Na literatura, cita João Antônio, Plínio Marcos e Lima Barreto, todos autores que retratam as periferias e as pessoas marginalizadas pela sociedade. “O João Antônio é um grande autor brasileiro, e ninguém fala dele. O Lima Barreto, agora que começaram a falar, ainda bem”.

Sobre autores internacionais, faz questão de não esconder sua admiração pelo alemão Herman Hesse. “Demian” foi o primeiro livro que leu na vida, e até hoje Ferréz se emociona quando fala sobre a obra.

“‘Demian’ parar na minha mão por acaso, eu fui levar uma cesta básica para um amigo, um cara muito pobre, a mãe dele tinha abandonado ele e deixou uma caixa com livros. Esse livro estava no meio e ele me emprestou. Eu li e fiquei fascinado. Não que eu tenha entendido de cara, mas o ‘Demian’ bateu em mim de uma forma diferente. Eu fui me apropriando de trechos do livro para a minha vida. Ainda hoje, alguns direcionamentos que eu faço na minha vida são por causa do Herman Hesse”.

“É um autor que pega você depois, com a maturidade. Eu demorei muitos anos para entender o que era o ruído. Jogam ruído na gente o tempo todo e a gente não consegue sintonizar nas coisas que são importantes, não consegue descobrir a vida de verdade. Algum dia, todo mundo que está lendo essa matéria vai parar e pensar ‘eu não quero tanto ruído na minha cabeça’. E a pessoa vai lembrar daquele gordinho filho da puta dando entrevista para aquele barbudo filho da puta.Tem coisas que demoramos anos para entender”.

Fugir do ruído para buscar uma reflexão autêntica sobre a própria vida, no entanto, não significa inação ou conformismo. Ferréz deixa claro que as palavras têm poder. E que os marginalizados precisam exercer esse poder. “Quando você se cala, o discurso de um Bolsonaro fica mais forte. A morte de um jovem da periferia começa nos discursos desses caras. Quando alguém fala ‘bandido bom é bandido morto’ e você se cala, esse discurso reverbera até chegar num capitão da ROTA, até se transformar em uma chacina na periferia. O discurso de um Danilo Gentili, que tem o dom da comunicação, que tem um puta veículo para se expressar, reverbera e se transforma em violência. São pessoas que querem liberdade para tirar a liberdade de outras pessoas. As pessoas boas não podem se calar e deixar a palavra com esses caras”.

Embora não ocupe os espaços na grande mídia, a periferia está longe de se calar diante dos seus problemas. Ferréz faz questão de destacar que é nas quebradas que se produz mais poesia. “Quantos saraus existem na periferia de São Paulo? Aqui a poesia não é uma coisa morta, acadêmica, descolada da realidade”.

A relação entre realidade e literatura já rendeu ao escritor acusações de ser panfletário. Ferréz diz que não pretende ser um autor cego aos problemas à sua volta. Sua literatura tem um caráter de denúncia, mas não se resume a isso. “Algumas pessoas querem diminuir a literatura produzida na periferia dizendo que os textos têm valor apenas pela temática, e não pela qualidade do texto em si. É mais uma das estratégias para nos silenciar. A principal é não divulgar, mas reduzir os textos apenas à temática também acontece com frequência”.

O tempo passou rápido. Quando nos demos conta, as crianças do período da tarde já deixavam o espaço depois das atividades. Ganhei de presente o livro de contos “Ninguém é inocente em São Paulo” e o CD “Palavrarmas”.

Ferréz disse que era um pedido de desculpas pelo atraso. Muller Silva, responsável pela comunicação da ONG, já havia me dito: “Ele não atrasa com ninguém”. Os presentes mais que compensaram o tempo de espera. E todos na ONG fizeram eu me sentir um hóspede privilegiado.