18 de dezembro de 2017

Ele


Por Giovanna Ramos Nucitelli

Nasceu escravo. Escravo de trabalho e de corpo. Escravo de dores e de cor. Rotina sofrida. De fazenda a fazenda, de chão a chão, de chicotadas por insubordinação. Foi feito um burro de carga, máquina de trabalhar, moldado às maneiras do homem branco. Proibiram sua cultura, sua expressão e sua luta. Separaram-no de sua família e de seu grupo, tiraram sua vitalidade e esperança por dias melhores. Quebraram seus costumes e os caçaram como animais. O que lhes fazia serem diferentes dos demais? Seria seu lugar de origem? Seu tom de pele? A forma como, mesmo embaixo de sol a sol, não desistia e nem se entregava à exaustão?

Libertaram-no.

Nasceu pobre. Pobre de renda e bens. Pobre de força e influência. No entanto, sua riqueza, seu verdadeiro baú do tesouro, estava em seu espírito. Espírito de gente forte e lutadora, que enfrenta de cabeça erguida as adversidades da vida e que mesmo submetido à precariedade e ao preconceito reergue-se e se transforma à sua própria imagem. Viu seu corpo desprezado, sua identidade ignorada e foi buscar trabalho nas cidades. As periferias, sua única alternativa no caos cinzento da urbanidade. Moldou-a as suas condições. Foi ignorado, subestimado e violentado.

Sobreviveu.

Nasceu artista. Foi compositor, poeta, escritor. Foi cantor, grafiteiro, pintor. Fez das suas manifestações a sua arte. Consolidou sua expressão e popularizou seus ritmos. Samba, rap, funk. Expos suas alegrias, seus problemas e suas vontades. Contestou as formas de produção vigentes e foi criminalizado. Viu-se na imagem de João da Baiana, preso por andar com um pandeiro na mão. Enxergou-se como criminoso simplesmente por produzir. Assistiu à sua arte se tornar produto de ricos, desfazendo-se de sua origem. Do samba à bossa nova. Do funk ao twerk. Nossa eterna contradição.

Expressou-se.

Nasceu sofredor. Excluído e esquecido. Calado e julgado. Padeceu à violência do lugar onde cresceu, que sempre foi seu e ao mesmo tempo nunca lhe pertenceu. Foi alvejado, espancado e aterrorizado. Teve medo, vergonha e dor. Medo de morrer, de nunca crescer. Vergonha de ser o que se é, de ser da periferia. Dor por nunca ter sido visto, pelo fato de nunca poder se orgulhar. Abandonado, viu seus jovens morrerem cedo, o tráfico tomando vidas e sonhos em prol do dinheiro e do poder. O que realmente os fazia diferentes daqueles que estavam no poder? Injuriou o governo e foi buscar sua independência. Recusou se modelar à imagem do que eles viam.

Resistiu.

Nasceu lutador. Encontrou nas rimas a sua resistência. Encontrou nas músicas sua independência. Viveu pela primeira vez o orgulho de pertencer à periferia. Do hip hop ao funk, do rap às poesias. Ele assistiu aos becos se transformarem em vida, à vida se transformar em expressão e à expressão mudar sua identidade. Viu seus jovens se viciarem em arte e a arte se tornar seu protesto. Contestou o governo e a mídia manipuladora. Produziu seus próprios materiais e provou, de uma vez por todas, que ele merecia dignidade.

Existiu.

Nasceu criminoso. Criminoso por cantar. Criminoso por pensar. Censurado por se manifestar, desde seus princípios, na sua origem. A capoeira, sua luta, um delito. Hoje, do funk ao rap, uma ofensa para a sociedade. Era uma afronta à sua identidade. Viu-se na pele de João da Baiana, mais uma vez. Criminalização do funk, policiais investigando clipes de hip hop. O que ele havia feito de errado dessa vez? Deveria ele permanecer eternamente na sombra de uma cultura dominante, escravizado e subjugado por ela? Enxergou-se como criminoso simplesmente por existir.

Sofreu.

Nasceu sobrevivente. Sobreviveu à escravidão e a pobreza. Sobreviveu à censura e à violência. Não havia alternativas. Nunca houve. Armas de fogo, drogas e imposições daqueles que estavam no poder. Ele nunca esteve no poder. Nunca pôde controlar sua própria história. Mas não hoje. Hoje ele precisava se impor, para que o enxergassem e não olhassem através dele. Ele necessitava provar sua existência, reafirmar sua identidade e exigir seus direitos. Direito à saúde, educação e segurança. Ele era digno de respeito tanto como qualquer um, digno de produzir sua arte e se expressar. Ele era humano.

Viveu.