18 de dezembro de 2017

Cocão Avoz do Rap



Divulgação


Por Aline Bispo e Giovanna de Castro

Ed Mauro Almeida, 38, diz preferir ser chamado apenas de Mauro Almeida por achar o “Ed” mal-apessoado. Filho de baianos com muito orgulho, ele nasceu na zona sul de São Paulo, mas é como Cocão Avoz que ele é realmente conhecido na sua região e nas redes sociais. Em um bate-papo descontraído na Casa da Cultura do M’Boi Mirim, atrelado a cinco shows que comemorava o aniversário da 10º Mostra Cultural da Cooperifa, no qual ele já é integrante a 14 anos, Cocão comentou sobre sua carreira como rapper e poeta da periferia, do seu envolvimento com a Cooperifa, e de como a arte lhe tirou o medo que ele tinha das ruas. Conferia a seguir, a entrevista exclusiva com o artista.


Conexão Foca - Quando e como surgiu o apelido Cocão? 
Cocão Avoz - Recebi de um amigo na Cohab São Luís, onde moro. Em uma roda de amigos me perguntaram como eu conseguia decorar as rimas, músicas, poesias e os raps muito rápido. Daí esse amigo que me apelidou meio que sem querer, falou, “também com esse cocão, como não guardar tantas coisas?”. Eles associaram cocão à cabeça, e daí ficou. A princípio eu não gostei, mas apelido pega quando a gente não gosta. Agora eu não ligo. Há quase 19 anos me chamam assim (risos).

Conexão Foca - Quando surgiu seu interesse por poesia? 
CA - Eu fazia rap e não sabia que rap era ritmo e poesia, daí comecei a ver nos livros, nos muros, e vi que era legal de fazer e ouvir.

Conexão Foca - Para quem você escreve? 
CA - Primeiro, para mim, para me tranquilizar, para me reconhecer; me sentir bem; depois para as pessoas. Não gosto de direcionar o que escrevo para alguém específico, mas de escrever algo que lembre alguém, que as pessoas se sensibilizem, acreditem, vejam oportunidades ou saídas com os meus versos, que os levem para algum lugar. Vários raps me direcionaram, me fizeram seguir um caminho, trilhar uma estrada. Então, que o meu rap chegue a essas pessoas, pessoas simples, que trabalham, que estudam, que sonham. Que chegue a essas pessoas que querem ouvir, que querem se sentir bem com a música.

Conexão Foca - O seu rap vira poesia ou a sua poesia vira rap?
CA - Um é ligado ao outro, rap é ritmo e poesia. Na Cooperifa eu tiro o ritmo e faço a poesia e no palco eu faço ritmo e poesia.  Quando falo de rap e poesia eu não consigo desvincular, é um corpo só.

Conexão Foca - Falando de poesia, você é romântico? 
CA - Sou pouco romântico. Na minha família, não sou muito carinhoso, embora respeite e a ame. Nunca escrevi algo de teor romântico. Acho que preciso escrever algo desse nível, mas não sou romântico não.

Conexão Foca - Em quem se inspirou para fazer seu rap A Diarista?
CA - A diarista nasceu na lotação, quando eu voltava do trabalho. É uma das primeiras músicas do meu trabalho solo. A inspiração veio de algumas mulheres que voltavam do trabalho na mesma condução que eu. Fiquei ouvindo suas queixas e discursos, pensei que poderia ser a minha mãe, tia ou uma amiga. Lá eu fiz os primeiros versos.

Conexão Foca - Sua música “Era Uma Vez” mistura um pouco de moda de viola. De onde você tirou essa influência?
CA - Essa música eu não gravei ainda, mas as vezes a declamo na Cooperifa. Essa música nasceu quando eu vi um quadro em um ferro velho e levei para casa. Ele tem um rosto de um personagem da rua. Fiquei imaginando quem seria esse cara, narrei uma ideia e criei uma ficção em cima disso. Como a música fala de alguém que veio da Bahia, não tinha como eu não lembrar de moda de viola e vincular mais essa produção.

Conexão Foca - Conte um pouco sobre o grupo Versão Popular, e como ele surgiu?
CA - Apesar de todos do grupo estarem com um trabalho solo, esse grupo ainda existe, ele tem 18 anos.  Participamos ainda de festivais e campeonatos de DJ’s. O Versão Popular nasceu em 1999 no Jardim São Luís. A primeira formação era eu e o Leandro, estamos juntos até hoje. Depois, veio o Zeca, a Kelly e o Preto Will, que já fez se desligou do grupo. Na época, vários MC’s como o “Irmão de Sangue” e “Comando Gueto” nos inspiraram a fazer rap. O Versão Popular nasceu da necessidade de fazer algo pela periferia.

Conexão Foca - Além da música, poesia e Cooperifa, você faz outra coisa para sobreviver?
CA - Hoje não mais, procuro viver e sobreviver apenas do que fortalece meu coração, com coisas em que eu acredito e que não me frustrem. São altos e baixos viver do que se acredita, todo dia é uma luta.

Conexão Foca - Dá para sobreviver de rap e poesia?
CA - Sim. Basta concentração, dedicação e determinação da minha parte. Organizar as paradas sem ostentar ou se exibir.

Conexão Foca - Como você conheceu o Sérgio Vaz?
CA - Eu o via sempre nos grandes shows de rap que ele frequentava. E nos shows, ele acabava declamando algumas de suas poesias. Antes disso eu já ouvia falar dele. Anos depois, o conheci na Cooperifa, quando me apresentaram o projeto.

Conexão Foca - Além do Sérgio Vaz, você se inspira em outro poeta?
CA - Gosto muito de Cora Coralina, acho as poesias dela muito para frente.

Conexão Foca - Antes da Cooperifa o que você fazia?
CA - Eu já fazia rap, comecei em 1998. Três anos depois, conheci a Cooperifa, mas antes já rimava e escrevia. Antes do rap fui skatista, hoje não mais, a idade não deixa. Tenho quase 40 anos (risos).

Conexão Foca - Vi que a Cooperifa é um projeto fundado na zona sul. Ele ainda é restrito ou já se expandiu para outros locais? 
CA - É um sarau da zona sul, essa é a identidade dele. Tem lugar fixo no bar do Zé Batidão. Atualmente, lá é o nosso espaço, porém, já fizemos atividades em vários lugares fora de São Paulo e inclusive até fora do país. Sempre surgem convites, então levamos a Cooperifa até eles.

Conexão Foca - Quem era você antes de se envolver com arte? 
CA - Eu era um cara que tinha muito medo da rua, nunca gostei de me envolver em brigas, sempre tive medo da violência. O crime nunca me interessou, nunca me seduziu. Eu sempre fui simples, uma cara tranquilo e pacato por causa dos meus pais. Gosto muito de uma frase do Finu do Rap, ela retrata bem a minha realidade, “O crime está na minha rua, mas não está na minha vida”. Tive vários amigos que se perderam no crime, mas também tenho amigos que fizeram faculdade, se tornaram professores, viraram skatistas, grafiteiros, pedreiros, rappers e escreveram uma história. A arte  tirou o medo que eu tinha das ruas.

Conexão Foca - Você sempre está nas escolas. Como surgem esses convites e quais atividades você desenvolve lá?
CA - Meu primeiro contato na escola, como artista, foi em 1998, quando eu fui para apresentar meu rap. Não tinha muita experiência, então só cantava. Depois de ter conhecido o Sérgio Vaz e integrar na Cooperifa, esses convites acabaram rolando com facilidade. Muitos professores frequentam os saraus e propõem parcerias para nos apresentarmos para a criançada. Os convites são irrecusáveis, coopero com eles, estou junto e falo que eles não estão sozinhos. Não quero ser visto como herói pela  criançada, apenas conto a minha história de vida, passo meus contatos para o caso deles precisarem de algum apoio.

Conexão Foca - Você deu uma declaração que não estudou muito. Faltaram oportunidades a você?
CA - Considero falta de visão. Era adolescente entre 14 e 15 anos, só queria saber de andar de skate, bicicleta, zoar e andar de carrinho de rolimã. Naquela época já iam pessoas na minha escola fazer esse tipo de trabalho que faço com os adolescentes, só que eu não me interessava. Talvez, hoje, com o entendimento que tenho, as coisas teriam sido diferentes. Mas eu terminei o Ensino Médio. Fiz um curso de fotografia na USP, com duração de aproximadamente sete meses, e faço um pouco de produção musical.

Conexão Foca - Como você divulga seu trabalho?
CA - Através das redes sociais, Instagram, Facebook e YouTube. Antes eu usava só Cocão, mas vi que tem muitos MC’s com esse nome. Então, nas redes sociais, coloquei Cocão Avoz, como se fosse Avon só que com Z no final (risos). Cocão Avoz coloquei por causa da música “É a vez é a voz”. Aí pegou.