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18 de dezembro de 2017

Sacolinha: revitalizando a quebrada


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Por Laura Luz e Kadyje Barakat
Ademiro Alvez de Souza, mais conhecido como Sacolinha, ganhou esse apelido após começar a trabalhar no metrô, aos nove anos de idade. De lá para cá, muita coisa mudou em sua vida, tendo virado escritor e artista, representante da periferia, e porta-voz de um tipo de arte que até há algumas décadas, era discriminada na cidade de São Paulo. Conexão Foca bateu um papo com o escritor, que contou um pouco da sua história, da sua luta, e do seu trabalho.

Conexão Foca - Quem é você, além do Sacolinha, escritor, poeta e professor?

Sacolinha - Minha avó perguntava para mim: “Você é um homem ou um saco de batata?” Eu cresci com medo de ser um saco de batata. Eu pensava: “Ser homem é melhor do que ser um saco de batata”. Na concepção da minha avó, ser homem era ser algo útil. Hoje eu sou algo útil.


Conexão Foca - Como foi seu primeiro contato com a Literatura?

Sacolinha - Eu comecei a ler com 18 anos. Meu primeiro livro foi a Carteira de Trabalho. Comecei a ler no trem, para passar o tempo. Nesse mesmo dia eu passei por uma abordagem policial. Eles pediram meu RG e eu lembrei que estava sem. Eu tinha lido que a Carteira de Trabalho era um documento e substituía o RG. Eles consultaram minha ficha e me liberaram. Desse dia em diante eu decidi nunca mais parar de ler. Através dessa informação que eu adquiri, eu percebi que a leitura salva e ela poderia me salvar de vários outros dias. Foi a melhor coisa que eu fiz. Eu só sou o que sou hoje graças à leitura, graças aos livros.  Depois, em 2003, eu conheci a Carolina Maria de Jesus. Era uma época que a gente tinha vergonha de morar na periferia, tinha vergonha de entregar currículo com o nosso endereço. E eu comecei a escrever.

Conexão Foca - Quando foi que você percebeu que escrevia, que era algo que você gostava? De que forma isso te motivou a continuar?

Sacolinha - Na verdade, foi uma necessidade. Eu sustentava uma família de 11 pessoas, com 15 reais por dia, trabalhando como cobrador de lotação. Eu estava lendo quatro livros por semana, não tinha com quem conversar. Meus amigos corriam de mim. Eu era o chato da minha rua, porque eu queria falar de poesia, queria falar de livros. E tudo isso começou a acumular na minha cabeça, estava para explodir. A leitura me mostrou que eu podia explodir de forma poética, na escrita. E comecei a escrever. Colocava tudo aquilo que eu tinha na cabeça, no papel. Comecei a ganhar o respeito dos meus amigos. Eu comecei a escrever letras de rap e de samba. Eles estavam na esquina, fumando maconha. Usavam a caixinha de fósforo para acender o baseado. Eu chegava dizendo “estou com uma letra de samba aqui”. Eles começavam a batucar, se empolgavam com aquilo que eu escrevia. E eu comecei a ganhar o respeito. E da mesma forma que aconteceu com a leitura, aconteceu com a escrita. Eu pensei: “Escrever é bom! Me alivia, me faz ganhar respeito”, e foi assim que aconteceu.

Conexão Foca - Como sua família viu tudo isso?

Sacolinha - Era: “ah, está escrevendo, não está fazendo nada de errado. Mas isso ai não dá dinheiro, não dá futuro”. Na minha família tem um padre, meu tio. Eu pegava uns livros dele escondido, sem ele saber, para eu ler. O único orgulho da minha família era ele. Até o momento que eu publiquei um livro, que me viram na televisão, dando aula em universidade.

Conexão Foca - Por ser um homem, de periferia e escrever, existiu ou ainda existe alguma situação de preconceito? 

Sacolinha - Agora não mais. Entre 2002 fui chamado de “veado” inúmeras vezes. Aquela época não existia empoderamento. Claro que eu estava sendo empoderado pelos livros, mas para gente ser chamado de “veado” era algo muito ruim, tinha gente que não sabia lidar com isso.  Você negro, morador de periferia, pobre, ou você cantava pagode ou jogava futebol. Imagina o quanto eu não sofria no meio dos meus amigos, não é? Imagine como eu me senti quando comecei a ganhar o respeito dos meus amigos com os textos que eu escrevia. É irônico falar isso, porque muito desses amigos que corriam de mim, me chamavam de “veado” quando eu queria falar de poesia, muitos deles eu encontrei nas cadeias quando eu ia dar oficina de poesia. E quando eu chegava lá e via um ou outro preso, perguntava para mim mesmo: “E agora? Será que agora eu posso falar de poesia?”, porque poderia ser diferente. Poderia ser eu lá, junto com eles. Já dei aula para Fernandinho Beira-mar, Marcola, Elias Maluco. Ao invés de estar dando aula para esses caras de literatura, de poesia, era para eu estar lá junto com eles, preso, se eu tivesse dado ouvido aos meus amigos e pegado em uma arma. A leitura me mostrou isso. Hoje a gente fala muito de empoderamento. Empoderamento masculino, feminino, negro. Em 2002 eu estava me empoderando na periferia de Suzano.

Conexão Foca - No meio de tudo isso, quando você decidiu escrever o primeiro livro? Quais as maiores dificuldades enfrentadas?

Sacolinha - Foi tudo natural. Não foi decisão. O meu primeiro livro, nem era para ser um livro. Fui escrever um conto chamado “Graduado em Marginalidade”. Comecei a escrever em 2004, porque até aquele momento eu já tinha escrito poesia, frases, rap, samba. Eu queria me aventurar no mundo da prosa. Comecei a escrever esse conto, mais por inexperiência literária, porque até aquele momento eu não tinha escrito nada em prosa. Esse conto foi recebendo personagens, cenas, conflitos, foi crescendo e acabou virando um romance. Eu estava empolgado com a escrita do primeiro livro, comecei a mandar para várias editoras, até perceber que eu não seria publicado porque era um autor novo e autor novo não dá dinheiro para editora. Então resolvi publicar com dinheiro do meu próprio bolso. Comecei a vender rifa, fiz show de rap em prol do livro, e consegui metade do valor para publicar 500 exemplares, mas só vendi 48. Para mim era pouco, porque em 15 dias eu tinha uma segunda parcela para pagar para a editora. Depois desse lançamento, eu coloquei meus livros na mochila e fui vender no centro de São Paulo, nos bares da Vila Madalena, Pinheiros. Eu demorei dois meses para vender o primeiro livro. Levei muitos nãos. Mas depois meu nome começou a ficar conhecido. Foi assim a saga do primeiro livro.

Conexão Foca - Como foi sua participação na Cooperifa? Qual a importância desse projeto para você?

Sacolinha - Eu tenho uma amizade com o Sergio Vaz antes da Cooperifa. Eu trocava cartas com ele, Alessandro Buzo e a turma do Fanzine. Ele começou a fazer o Sarau da Cooperifa. Em 2003, ele me chamou para participar de uma edição especial que foi feita na Câmara dos Vereadores, em São Paulo. Eu fui participar como convidado e acabei gostando do que vi. Acabei participando outras vezes lá em Piraporinha. Quando publiquei meu primeiro livro, fiz um lançamento lá também. Comecei a fazer um sarau em Suzano, inspirado na Cooperifa, o “Pavio da Cultura”, feito na secretaria de Cultura. A Cooperifa foi o pontapé, a inspiração para desenvolver esse projeto. Depois, começamos a desenvolver o Sarau Literatura Nossa, sem envolvimento da prefeitura.

Conexão Foca - Quais suas inspirações?

Sacolinha - Eu me inspiro na minha horta, que tenho no fundo do meu quintal. Eu faço caminhada no bairro, eu gosto de ver o povo levantando, gosto de ver o cachorro furando os sacos de lixo na rua. Isso me dá inspiração. Às vezes. me falta inspiração e eu vou caminhar. Os livros são inspirações, a leitura nunca me abandona.

Conexão Foca - Você conhece pessoas que foram diretamente sensibilizadas pelo seu trabalho? Que escrevem e/ou leem por conta do que você faz?

Sacolinha - Tenho muitos exemplos. Eu desenvolvo pelo menos uma palestra por semana em escola pública. Eu vou lá porque quero mudar vidas, salvar vidas. Em toda palestra tive êxito, eu plantei. Eu cito em meu livro, em especial, duas pessoas. O Mano Caquis, poeta que mora na cidade de Suzano, que passou 19 anos usando drogas e ficava largado na praça do centro. Ele sempre rascunhava alguma coisa e ninguém dava valor. Teve um dia que meu primeiro livro caiu nas mãos dele. Ele leu aquilo e não acreditou. A forma como ele descreve é igual ao que aconteceu comigo, quando eu conheci Carolina Maria de Jesus. Ele não acreditou que alguém parecido com ele, negro, morador de periferia, tinha escrito aquilo. Em 2006, ele foi me conhecer, e foi bem no momento em que estávamos realizando o Primeiro Concurso Literário de Suzano. Eu o convidei para participar e ele ficou em sétimo lugar. O fato de ter lido o “Graduado em Marginalidade” deu uma empolgação para ele me conhecer também. Participou do concurso e isso deu a ele o que precisava para sair das drogas. Não só saiu das drogas como publicou seu primeiro livro, e coordenou um espaço cultural que eu inaugurei no meu bairro. Tem um projeto que eu desenvolvo chamado Literatura e Paisagismo – Revitalizando a Quebrada. Comecei no meu bairro, pintando muro, escrevendo poesia. Esses dias eu recebi uma mensagem de uma mulher que tem depressão. Ela disse que estava indo para a faculdade, mas estava em um momento de recaída, e ela viu uma frase minha no muro: “O sol sempre foi sol, a gente é que anoitece”. E ela disse que se animou de uma tal maneira, disse que todas as vezes que fica desanimada, lembrava dessa frase. Eu ganho quando vejo um moleque ler uma poesia.


Ferréz: colado na realidade do Capão


foto: Felipe Silvatti

Por Felipe Silvatti

Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Uma busca no Google mostra, ainda na primeira página, duas notícias sobre o distrito pertencente à subprefeitura do Campo Limpo: uma, de 2016, afirma que o bairro é o mais violento da cidade de São Paulo; outra, de 2013, que o Capão é um dos lugares mais cinzas da metrópole.

O bairro ficou famoso principalmente pelas letras dos Racionais MCs. Não apenas o rap levou o Capão Redondo a ser falado e cantado por todo o Brasil. O nome do bairro também está no título do primeiro romance do escritor Ferréz, “Capão Pecado”, lançado em 2000.

Não é nenhum exagero dizer que “Capão Pecado” é um sucesso. Em um país de leitores escassos, e em que com uma vendagem de 15.000 cópias as obras já ganham o selo de best seller, o romance vendeu pouco mais de 100 mil cópias, segundo Ferréz.

Não se trata, porém, de um golpe de sorte de um autor que estourou no seu primeiro romance. Ferréz construiu a narrativa por cerca de quatro anos, anotando ideias que surgiam em momentos aleatórios. Hábito, aliás, que mantém até hoje. Enquanto conversa comigo, às vezes pede licença para anotar alguma frase em seu celular. “O livro é como um quebra-cabeça. Você tem que ir juntando as peças e guardando. Essa peça pode não fazer sentido agora, mas uma hora vai aparecer onde ela se encaixa”.

Enquanto escrevia a história de Rael, um adolescente do Capão Redondo que se apaixona pela namorada do amigo, Ferréz se sustentava com os empregos que apareciam: chapeiro de rede de fast-food, balconista de padaria, auxiliar de construção, entre outros.

Com o livro finalizado, Ferréz procurou ajuda para conseguir uma editora. Deixou alguns trechos do livro com amigos de grupos de rap. Alguns destes trechos foram parar nas mãos do repórter Ivan Finotti, da Folha de São Paulo. Finotti gostou do que leu, e entrou em contato para pedir o livro todo. O escritor respondeu que não tinha. Estava desempregado e sem dinheiro para bancar a impressão. Finotti teve que se virar para arrumar folhas de sulfite e tinta.

Em 06 de janeiro de 2000, Ferréz apareceu na capa da Ilustrada. “Muita gente aqui no bairro achou que eu tinha morrido, porque aqui o pessoal só aparece no jornal quando morre”. Ivan Finotti fez uma matéria sobre o livro, ainda não lançado e sem contrato com editora. A matéria ajudou. Ferréz recebeu propostas de várias editoras, algumas renomadas. A menor e mais nova foi a escolhida para lançar “Capão Pecado”.

O escritor nunca saberá ao certo quantas cópias foram vendidas pela Labortexto. “Foram trinta mil cópias, mas isso foi um juiz que determinou. A editora não me pagou. Tive que entrar na justiça. O livro estava vendendo bem, eu tinha a fama, dava entrevista no Jô Soares, mas não tinha um real no bolso. Tive que começar tudo de novo”.

Ferréz é o codinome de Reginaldo Ferreira da Silva, 42 anos. É um homem grande e corpulento, o que contrasta com sua fala calma e paciente. Nos encontramos na ONG Interferência, fundada pelo escritor em 2009, no Jardim Inah, no próprio Capão Redondo. A ONG atende crianças de 06 a 16 anos. Oferece oficinas e atividades que envolvem literatura e manifestações culturais brasileiras, como a capoeira, o maculelê, o samba de roda. É o primeiro espaço a oferecer educação não formal para as crianças da região.

O primeiro livro de Ferréz, antes de Capão Pecado, foi “Fortaleza da Desilusão”, de poesias, lançado em 1997. “Esse eu nem fui atrás de editora, foi o pessoal do meu trampo que bancou a edição. E logo depois do lançamento me mandaram embora. Falaram que eu era um bom escritor, mas um péssimo funcionário”.

“Manual prático do ódio”, lançado em 2003, consolidou a carreira do escritor. A crítica apontou uma evolução na técnica narrativa de Ferréz. O livro foi traduzido em vários idiomas e lançado em mais de 30 países. O escritor viajou para vários desses lugares para dar palestras. “Isso é um retorno legal que a literatura me deu. Não me deu grana, mas me deu a oportunidade de viajar para lugares onde eu nunca iria”. A vendagem, no entanto, não passou nem perto da alcançada pelo primeiro romance. “Isso aí é assim mesmo. Fica quem é pra ficar, quem gosta mesmo da sua literatura. Quando a moda passa ficam os verdadeiros.”

De lá para cá Ferréz já lançou livro infantil, revista em quadrinhos, CD de rap, CD de poesias recitadas, livro de contos e mais um romance, “Deus foi almoçar”, lançado em 2012.

Quando pergunto qual sua maior influência na literatura brasileira, responde sem hesitar: “Minha maior influência é o rap. E os quadrinhos. Lourenço Mutarelli.” Na literatura, cita João Antônio, Plínio Marcos e Lima Barreto, todos autores que retratam as periferias e as pessoas marginalizadas pela sociedade. “O João Antônio é um grande autor brasileiro, e ninguém fala dele. O Lima Barreto, agora que começaram a falar, ainda bem”.

Sobre autores internacionais, faz questão de não esconder sua admiração pelo alemão Herman Hesse. “Demian” foi o primeiro livro que leu na vida, e até hoje Ferréz se emociona quando fala sobre a obra.

“‘Demian’ parar na minha mão por acaso, eu fui levar uma cesta básica para um amigo, um cara muito pobre, a mãe dele tinha abandonado ele e deixou uma caixa com livros. Esse livro estava no meio e ele me emprestou. Eu li e fiquei fascinado. Não que eu tenha entendido de cara, mas o ‘Demian’ bateu em mim de uma forma diferente. Eu fui me apropriando de trechos do livro para a minha vida. Ainda hoje, alguns direcionamentos que eu faço na minha vida são por causa do Herman Hesse”.

“É um autor que pega você depois, com a maturidade. Eu demorei muitos anos para entender o que era o ruído. Jogam ruído na gente o tempo todo e a gente não consegue sintonizar nas coisas que são importantes, não consegue descobrir a vida de verdade. Algum dia, todo mundo que está lendo essa matéria vai parar e pensar ‘eu não quero tanto ruído na minha cabeça’. E a pessoa vai lembrar daquele gordinho filho da puta dando entrevista para aquele barbudo filho da puta.Tem coisas que demoramos anos para entender”.

Fugir do ruído para buscar uma reflexão autêntica sobre a própria vida, no entanto, não significa inação ou conformismo. Ferréz deixa claro que as palavras têm poder. E que os marginalizados precisam exercer esse poder. “Quando você se cala, o discurso de um Bolsonaro fica mais forte. A morte de um jovem da periferia começa nos discursos desses caras. Quando alguém fala ‘bandido bom é bandido morto’ e você se cala, esse discurso reverbera até chegar num capitão da ROTA, até se transformar em uma chacina na periferia. O discurso de um Danilo Gentili, que tem o dom da comunicação, que tem um puta veículo para se expressar, reverbera e se transforma em violência. São pessoas que querem liberdade para tirar a liberdade de outras pessoas. As pessoas boas não podem se calar e deixar a palavra com esses caras”.

Embora não ocupe os espaços na grande mídia, a periferia está longe de se calar diante dos seus problemas. Ferréz faz questão de destacar que é nas quebradas que se produz mais poesia. “Quantos saraus existem na periferia de São Paulo? Aqui a poesia não é uma coisa morta, acadêmica, descolada da realidade”.

A relação entre realidade e literatura já rendeu ao escritor acusações de ser panfletário. Ferréz diz que não pretende ser um autor cego aos problemas à sua volta. Sua literatura tem um caráter de denúncia, mas não se resume a isso. “Algumas pessoas querem diminuir a literatura produzida na periferia dizendo que os textos têm valor apenas pela temática, e não pela qualidade do texto em si. É mais uma das estratégias para nos silenciar. A principal é não divulgar, mas reduzir os textos apenas à temática também acontece com frequência”.

O tempo passou rápido. Quando nos demos conta, as crianças do período da tarde já deixavam o espaço depois das atividades. Ganhei de presente o livro de contos “Ninguém é inocente em São Paulo” e o CD “Palavrarmas”.

Ferréz disse que era um pedido de desculpas pelo atraso. Muller Silva, responsável pela comunicação da ONG, já havia me dito: “Ele não atrasa com ninguém”. Os presentes mais que compensaram o tempo de espera. E todos na ONG fizeram eu me sentir um hóspede privilegiado.

Cocão Avoz do Rap



Divulgação


Por Aline Bispo e Giovanna de Castro

Ed Mauro Almeida, 38, diz preferir ser chamado apenas de Mauro Almeida por achar o “Ed” mal-apessoado. Filho de baianos com muito orgulho, ele nasceu na zona sul de São Paulo, mas é como Cocão Avoz que ele é realmente conhecido na sua região e nas redes sociais. Em um bate-papo descontraído na Casa da Cultura do M’Boi Mirim, atrelado a cinco shows que comemorava o aniversário da 10º Mostra Cultural da Cooperifa, no qual ele já é integrante a 14 anos, Cocão comentou sobre sua carreira como rapper e poeta da periferia, do seu envolvimento com a Cooperifa, e de como a arte lhe tirou o medo que ele tinha das ruas. Conferia a seguir, a entrevista exclusiva com o artista.


Conexão Foca - Quando e como surgiu o apelido Cocão? 
Cocão Avoz - Recebi de um amigo na Cohab São Luís, onde moro. Em uma roda de amigos me perguntaram como eu conseguia decorar as rimas, músicas, poesias e os raps muito rápido. Daí esse amigo que me apelidou meio que sem querer, falou, “também com esse cocão, como não guardar tantas coisas?”. Eles associaram cocão à cabeça, e daí ficou. A princípio eu não gostei, mas apelido pega quando a gente não gosta. Agora eu não ligo. Há quase 19 anos me chamam assim (risos).

Conexão Foca - Quando surgiu seu interesse por poesia? 
CA - Eu fazia rap e não sabia que rap era ritmo e poesia, daí comecei a ver nos livros, nos muros, e vi que era legal de fazer e ouvir.

Conexão Foca - Para quem você escreve? 
CA - Primeiro, para mim, para me tranquilizar, para me reconhecer; me sentir bem; depois para as pessoas. Não gosto de direcionar o que escrevo para alguém específico, mas de escrever algo que lembre alguém, que as pessoas se sensibilizem, acreditem, vejam oportunidades ou saídas com os meus versos, que os levem para algum lugar. Vários raps me direcionaram, me fizeram seguir um caminho, trilhar uma estrada. Então, que o meu rap chegue a essas pessoas, pessoas simples, que trabalham, que estudam, que sonham. Que chegue a essas pessoas que querem ouvir, que querem se sentir bem com a música.

Conexão Foca - O seu rap vira poesia ou a sua poesia vira rap?
CA - Um é ligado ao outro, rap é ritmo e poesia. Na Cooperifa eu tiro o ritmo e faço a poesia e no palco eu faço ritmo e poesia.  Quando falo de rap e poesia eu não consigo desvincular, é um corpo só.

Conexão Foca - Falando de poesia, você é romântico? 
CA - Sou pouco romântico. Na minha família, não sou muito carinhoso, embora respeite e a ame. Nunca escrevi algo de teor romântico. Acho que preciso escrever algo desse nível, mas não sou romântico não.

Conexão Foca - Em quem se inspirou para fazer seu rap A Diarista?
CA - A diarista nasceu na lotação, quando eu voltava do trabalho. É uma das primeiras músicas do meu trabalho solo. A inspiração veio de algumas mulheres que voltavam do trabalho na mesma condução que eu. Fiquei ouvindo suas queixas e discursos, pensei que poderia ser a minha mãe, tia ou uma amiga. Lá eu fiz os primeiros versos.

Conexão Foca - Sua música “Era Uma Vez” mistura um pouco de moda de viola. De onde você tirou essa influência?
CA - Essa música eu não gravei ainda, mas as vezes a declamo na Cooperifa. Essa música nasceu quando eu vi um quadro em um ferro velho e levei para casa. Ele tem um rosto de um personagem da rua. Fiquei imaginando quem seria esse cara, narrei uma ideia e criei uma ficção em cima disso. Como a música fala de alguém que veio da Bahia, não tinha como eu não lembrar de moda de viola e vincular mais essa produção.

Conexão Foca - Conte um pouco sobre o grupo Versão Popular, e como ele surgiu?
CA - Apesar de todos do grupo estarem com um trabalho solo, esse grupo ainda existe, ele tem 18 anos.  Participamos ainda de festivais e campeonatos de DJ’s. O Versão Popular nasceu em 1999 no Jardim São Luís. A primeira formação era eu e o Leandro, estamos juntos até hoje. Depois, veio o Zeca, a Kelly e o Preto Will, que já fez se desligou do grupo. Na época, vários MC’s como o “Irmão de Sangue” e “Comando Gueto” nos inspiraram a fazer rap. O Versão Popular nasceu da necessidade de fazer algo pela periferia.

Conexão Foca - Além da música, poesia e Cooperifa, você faz outra coisa para sobreviver?
CA - Hoje não mais, procuro viver e sobreviver apenas do que fortalece meu coração, com coisas em que eu acredito e que não me frustrem. São altos e baixos viver do que se acredita, todo dia é uma luta.

Conexão Foca - Dá para sobreviver de rap e poesia?
CA - Sim. Basta concentração, dedicação e determinação da minha parte. Organizar as paradas sem ostentar ou se exibir.

Conexão Foca - Como você conheceu o Sérgio Vaz?
CA - Eu o via sempre nos grandes shows de rap que ele frequentava. E nos shows, ele acabava declamando algumas de suas poesias. Antes disso eu já ouvia falar dele. Anos depois, o conheci na Cooperifa, quando me apresentaram o projeto.

Conexão Foca - Além do Sérgio Vaz, você se inspira em outro poeta?
CA - Gosto muito de Cora Coralina, acho as poesias dela muito para frente.

Conexão Foca - Antes da Cooperifa o que você fazia?
CA - Eu já fazia rap, comecei em 1998. Três anos depois, conheci a Cooperifa, mas antes já rimava e escrevia. Antes do rap fui skatista, hoje não mais, a idade não deixa. Tenho quase 40 anos (risos).

Conexão Foca - Vi que a Cooperifa é um projeto fundado na zona sul. Ele ainda é restrito ou já se expandiu para outros locais? 
CA - É um sarau da zona sul, essa é a identidade dele. Tem lugar fixo no bar do Zé Batidão. Atualmente, lá é o nosso espaço, porém, já fizemos atividades em vários lugares fora de São Paulo e inclusive até fora do país. Sempre surgem convites, então levamos a Cooperifa até eles.

Conexão Foca - Quem era você antes de se envolver com arte? 
CA - Eu era um cara que tinha muito medo da rua, nunca gostei de me envolver em brigas, sempre tive medo da violência. O crime nunca me interessou, nunca me seduziu. Eu sempre fui simples, uma cara tranquilo e pacato por causa dos meus pais. Gosto muito de uma frase do Finu do Rap, ela retrata bem a minha realidade, “O crime está na minha rua, mas não está na minha vida”. Tive vários amigos que se perderam no crime, mas também tenho amigos que fizeram faculdade, se tornaram professores, viraram skatistas, grafiteiros, pedreiros, rappers e escreveram uma história. A arte  tirou o medo que eu tinha das ruas.

Conexão Foca - Você sempre está nas escolas. Como surgem esses convites e quais atividades você desenvolve lá?
CA - Meu primeiro contato na escola, como artista, foi em 1998, quando eu fui para apresentar meu rap. Não tinha muita experiência, então só cantava. Depois de ter conhecido o Sérgio Vaz e integrar na Cooperifa, esses convites acabaram rolando com facilidade. Muitos professores frequentam os saraus e propõem parcerias para nos apresentarmos para a criançada. Os convites são irrecusáveis, coopero com eles, estou junto e falo que eles não estão sozinhos. Não quero ser visto como herói pela  criançada, apenas conto a minha história de vida, passo meus contatos para o caso deles precisarem de algum apoio.

Conexão Foca - Você deu uma declaração que não estudou muito. Faltaram oportunidades a você?
CA - Considero falta de visão. Era adolescente entre 14 e 15 anos, só queria saber de andar de skate, bicicleta, zoar e andar de carrinho de rolimã. Naquela época já iam pessoas na minha escola fazer esse tipo de trabalho que faço com os adolescentes, só que eu não me interessava. Talvez, hoje, com o entendimento que tenho, as coisas teriam sido diferentes. Mas eu terminei o Ensino Médio. Fiz um curso de fotografia na USP, com duração de aproximadamente sete meses, e faço um pouco de produção musical.

Conexão Foca - Como você divulga seu trabalho?
CA - Através das redes sociais, Instagram, Facebook e YouTube. Antes eu usava só Cocão, mas vi que tem muitos MC’s com esse nome. Então, nas redes sociais, coloquei Cocão Avoz, como se fosse Avon só que com Z no final (risos). Cocão Avoz coloquei por causa da música “É a vez é a voz”. Aí pegou.

Ele


Por Giovanna Ramos Nucitelli

Nasceu escravo. Escravo de trabalho e de corpo. Escravo de dores e de cor. Rotina sofrida. De fazenda a fazenda, de chão a chão, de chicotadas por insubordinação. Foi feito um burro de carga, máquina de trabalhar, moldado às maneiras do homem branco. Proibiram sua cultura, sua expressão e sua luta. Separaram-no de sua família e de seu grupo, tiraram sua vitalidade e esperança por dias melhores. Quebraram seus costumes e os caçaram como animais. O que lhes fazia serem diferentes dos demais? Seria seu lugar de origem? Seu tom de pele? A forma como, mesmo embaixo de sol a sol, não desistia e nem se entregava à exaustão?

Libertaram-no.

Nasceu pobre. Pobre de renda e bens. Pobre de força e influência. No entanto, sua riqueza, seu verdadeiro baú do tesouro, estava em seu espírito. Espírito de gente forte e lutadora, que enfrenta de cabeça erguida as adversidades da vida e que mesmo submetido à precariedade e ao preconceito reergue-se e se transforma à sua própria imagem. Viu seu corpo desprezado, sua identidade ignorada e foi buscar trabalho nas cidades. As periferias, sua única alternativa no caos cinzento da urbanidade. Moldou-a as suas condições. Foi ignorado, subestimado e violentado.

Sobreviveu.

Nasceu artista. Foi compositor, poeta, escritor. Foi cantor, grafiteiro, pintor. Fez das suas manifestações a sua arte. Consolidou sua expressão e popularizou seus ritmos. Samba, rap, funk. Expos suas alegrias, seus problemas e suas vontades. Contestou as formas de produção vigentes e foi criminalizado. Viu-se na imagem de João da Baiana, preso por andar com um pandeiro na mão. Enxergou-se como criminoso simplesmente por produzir. Assistiu à sua arte se tornar produto de ricos, desfazendo-se de sua origem. Do samba à bossa nova. Do funk ao twerk. Nossa eterna contradição.

Expressou-se.

Nasceu sofredor. Excluído e esquecido. Calado e julgado. Padeceu à violência do lugar onde cresceu, que sempre foi seu e ao mesmo tempo nunca lhe pertenceu. Foi alvejado, espancado e aterrorizado. Teve medo, vergonha e dor. Medo de morrer, de nunca crescer. Vergonha de ser o que se é, de ser da periferia. Dor por nunca ter sido visto, pelo fato de nunca poder se orgulhar. Abandonado, viu seus jovens morrerem cedo, o tráfico tomando vidas e sonhos em prol do dinheiro e do poder. O que realmente os fazia diferentes daqueles que estavam no poder? Injuriou o governo e foi buscar sua independência. Recusou se modelar à imagem do que eles viam.

Resistiu.

Nasceu lutador. Encontrou nas rimas a sua resistência. Encontrou nas músicas sua independência. Viveu pela primeira vez o orgulho de pertencer à periferia. Do hip hop ao funk, do rap às poesias. Ele assistiu aos becos se transformarem em vida, à vida se transformar em expressão e à expressão mudar sua identidade. Viu seus jovens se viciarem em arte e a arte se tornar seu protesto. Contestou o governo e a mídia manipuladora. Produziu seus próprios materiais e provou, de uma vez por todas, que ele merecia dignidade.

Existiu.

Nasceu criminoso. Criminoso por cantar. Criminoso por pensar. Censurado por se manifestar, desde seus princípios, na sua origem. A capoeira, sua luta, um delito. Hoje, do funk ao rap, uma ofensa para a sociedade. Era uma afronta à sua identidade. Viu-se na pele de João da Baiana, mais uma vez. Criminalização do funk, policiais investigando clipes de hip hop. O que ele havia feito de errado dessa vez? Deveria ele permanecer eternamente na sombra de uma cultura dominante, escravizado e subjugado por ela? Enxergou-se como criminoso simplesmente por existir.

Sofreu.

Nasceu sobrevivente. Sobreviveu à escravidão e a pobreza. Sobreviveu à censura e à violência. Não havia alternativas. Nunca houve. Armas de fogo, drogas e imposições daqueles que estavam no poder. Ele nunca esteve no poder. Nunca pôde controlar sua própria história. Mas não hoje. Hoje ele precisava se impor, para que o enxergassem e não olhassem através dele. Ele necessitava provar sua existência, reafirmar sua identidade e exigir seus direitos. Direito à saúde, educação e segurança. Ele era digno de respeito tanto como qualquer um, digno de produzir sua arte e se expressar. Ele era humano.

Viveu.