13 de novembro de 2017

Periferia em movimento


Por Ingrid Miranda

Em meio a tantas manifestações que se nomeiam populares e culturais, a cultura periférica surge da ampliação do processo de urbanização, onde é possível notar, em cidades de grande e médio porte, a formação de extensas regiões periféricas, distantes das áreas comerciais e históricas dessas cidades. Geralmente, esses espaços são ocupados por trabalhadores, pessoas de baixa renda e migrantes. Esses locais costumam chamar a atenção por sua grande  população atuante, alto índice de criminalidade e formas de organizações reivindicatórias formadas pelos moradores.

Diante das informações iniciais sobre periferia, há pelo menos duas décadas vem surgindo um processo que funciona como uma espécie de representação das ideologias periféricas: a produção artístico-cultural das pessoas ali presentes, que buscam nos meios culturais uma forma de construir sua própria imagem. Meios estes compostos por ações, tais como saraus com escritores e poetas moradores destes locais, grafites, danças, batucadas e músicas, que simbolizam o espaço da periferia.

A mídia oferta seu próprio significado de cultura-produto de ‘periferia’, ela impõe e reproduz conceitos de próprios de periferia, como foi mostrado em uma reportagem de Cecília Flesch para a Globo News, que levantou uma discussão sobre o comportamento dos ‘consumidores de cultura’. Constrói a sua ‘arte de fazer’ dos produtos culturais e comunicacionais. São fluxos culturais de negociação que são construídos através de um aprendizado na periferia, sobre um saber fazer comunicativo, provocando um processo de empoderamento capaz de causar deslocamentos na estrutura do poder.

Diante da posição que a mídia implica sob a cultura de periferia, onde esses artistas que representam suas raízes se encaixam? Sabemos que esses processos culturais começaram com o objetivo de representar o que o artista é, onde vive, onde mora. E hoje, o que e quem representa a periferia? Aqueles que se destacam na mídia ainda sabem de onde vieram?

Em entrevista concedida a Lucas Nascimento, no ano passado, publicada na plataforma livre para escritores e jornalistas, Blasting News, o cantor de rap Projota, relatou uma frase interessante: “Eu acho que as pessoas nunca podem esquecer quais são suas raízes”. Mas será que realmente esses cantores, que em boa parte de suas letras, se mantiveram sempre representando suas origens, hoje, coma ascensão na mídia, continuam a representar? Quando um artista como Projota, diz em um programa de televisão, como o Encontro com Fátima Bernardes, ter passado por uma depressão por ‘sentir vergonha de fazer sucesso’, mostra que até mesmo àquele que prometeu pra si mesmo nunca deixar suas raízes de lado, lá no comecinho da carreira, de um jeito ou outro, pode ser influenciado pelo sucesso.

Como se projetar na mídia e não abandonar aquilo que te levou ao topo? Talvez esta seja a pergunta mais difícil de fazer a esses artistas. Quando outro rapper, Rashid, diz em uma de suas letras que ‘afinal conseguimos chegar sem atalho, tem quem chame de sorte, mas não tem jeito. O nome disso é trabalho’, em sua última música de trabalho ‘Sem Sorte’, nos soa como alguém que já alcançou seus objetivos. Mas você, leitor, me pergunta quem é Rashid? Talvez um nome ainda não muito conhecido, apenas por aqueles que realmente apreciam esse tipo de representação artística cultural, ou aqueles que também vieram de lá, do mesmo lugar que o cantor, da periferia. Aqueles que sabem como ele, como é passar por tudo que possam ter passado e ainda ser vistos como pobres coitados pela mídia, por quem padroniza a sociedade.

A cultura por muito tempo foi vista como algo elitizado, tendo em vista somente lugares como museus, por exemplo, como acesso à cultura. A sociedade em si, demorou certo tempo para aceitar manifestações como saraus, se encaixando no perfil de cultura. Claro que, são perfis diferentes, com propostas e públicos diferentes. Mas todos são manifestações de processos culturais. Rose Hikiji, professora de antropologia da USP e estudiosa da cultura da periferia, em entrevista à Folha de S.Paulo, pontuou. “Por muito tempo, as políticas públicas tentaram tornar a cultura acessível. Houve uma inversão. Percebeu-se que já havia práticas culturais enraizadas, como o samba e as danças de rua, que precisavam ser desenvolvidas.”

São dos talentos, das danças, das músicas, dos ritmos que a periferia precisa. É de quem represente, mas também não abandone. É de quem não se deixe influenciar por qualquer conversa fiada de um produtor que te promete o mundo. É de quem sonhe sem tirar os pés do chão. De quem saiba a hora certa de escalar, e quando chegar ao topo, se dar por satisfeito de estar ali. Sempre sonhar por mais, mas nunca se esquecer de sonhar pelos outros. Talvez seja mais disso que essas pessoas precisem de pessoas que saiam do quadrado, mas saibam voltar para buscar o resto. Aliás, resto que não é pouco, o resto de molecada, que querem sonhar também.