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21 de novembro de 2017

A Cultura na Periferia

A segunda edição do jornal Conexão Foca tem como tema central a Cultura na Periferia, visando explanar assuntos que, em sua maioria, não recebem destaque na grande mídia.

Com esse intuito, Conexão Foca aborda a questão cultural na periferia a partir do décimo sexto aniversário da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), comemorado no último mês de outubro.

A cooperativa, para quem não conhece, é uma das pioneiras na promoção do trabalho artístico e cultural dos artistas e escritores da periferia de São Paulo, que inspirou vários movimentos similares por toda a cidade.

Nesta edição, alguns dos expoentes da geração pioneira da Cooperifa são retratados, como o escritor Ademiro Alves de Sousa, conhecido como Sacolinha, o rapper Cocão Avoz, e o já renomado escritor Ferréz, uma das vozes mais importantes da cultura periférica.

A edição traz ainda uma galeria com uma sequência de fotos jornalísticas retratando faces da cultura na periferia, bem como os projetos sociais desenvolvidos nas regiões mais carentes da cidade.

O leitor poderá ainda conhecer mais sobre os diferentes olhares que se entrecruzam no subúrbio, além de seus porta-vozes, e uma crônica retratando a problemática criminalização de determinadas culturas. Na seção Estante, dicas de livros e filmes que retratam a questão.

Esperamos que o jornal Conexão Foca proporcione um novo olhar sobre o valor e o espaço da cultura periférica.

Boa leitura!

13 de novembro de 2017

Sarau e a liberdade de expressão

Por João Vitor Franzone

Sarau é uma reunião de pessoas com o propósito de expor sua cultura, seja recitando poesias, cantando, dançando, lançando livros, entre outras expressões, que levam a cultura do dia a dia a um evento que tem como a principal característica a liberdade de expressão.

Hoje apropriado pela periferia, os saraus têm origem bem longe das favelas. O movimento chegou ao Brasil com D. João VI, e mesmo depois de décadas, continuou sendo predominante da elite. Já no século XX, contou com participações ilustres como a de Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira.

Os saraus foram apropriados pela periferia na segunda metade do século passado, quando foi levado a ambientes diferentes como espaços culturais, educacionais e até bares. O movimento, para periferia, tem extrema importância, pois dá voz para as pessoas que vivem à margem dos grandes centros.

Só em São Paulo são centenas de saraus que ocorrem mensalmente, espalhados pela cidade. Alguns periféricos, alguns centrais, alguns feitos em parques, praças, escolas, centro de culturais e em bares.

Os principais eventos desse tipo que ocorrem na cidade são:
Cooperifa -  criado pelo poeta Sergio Vaz, o sarau é realizado na zona sul da capital, no Bar do Zé Batidão, que fica no bairro Jardim Guarujá.
Elo da Corrente -  o coletivo literário realiza o seu sarau no Bar do Santista, no bairro de Pirituba, e tem como organizador o escritor Michel Yakini.
Sarau do Binho - é um sarau itinerante pelo bairro do Campo. Seu Binho é o idealizador da bicicleta literária, chamada de bicicloteca.
Sarau da Brasa -  é o maior e mais tradicional sarau da zona norte, realizado regularmente no Bar do Carlita, na Vila Brasilândia. O sarau também tem importância em manifestações culturais em escolas, orfanatos e praças.



Cooperifa comemora 16 anos com mostra cultural

O jornalista Xico Sá, o poeta Sérgio Vaz (ao  centro)
e  o  ator Wagner Moura no debate promovido
pela Cooperifa (foto: Jéssica Santos)


Por Jéssica Santos e Gabriel Ballock

Há dezesseis anos, nascia na periferia da zona sul de São Paulo, o movimento intitulado Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), idealizado pelo poeta Sergio Vaz, e que tinha como objetivo servir como porta-voz de uma geração que buscava se manifestar culturalmente, mas que não encontrava lugar nos espaços tomados por artistas da grande mídia.

Desde então, a Cooperifa ganhou corpo, tomou forma, e conseguiu a adesão de inúmeros artistas. De movimento periférico, tornou-se uma das maiores referências culturais destinada a abrigar artistas, poetas e ativistas que passaram a ter, na iniciativa de Sergio Vaz, eco para a poesia e voz daqueles que, até então, eram marginalizados.

Em 2007, inspirada pela Semana de Arte Moderna de 22, a Cooperifa promoveu a Semana de Arte Periférica. O projeto serviu como uma nova versão da iniciativa modernista, e reuniu artistas envolvidos no desenvolvimento de atividades culturais como teatro, exposição fotográfica e debates.
A Cooperifa foi também pioneira na promoção de saraus nas regiões mais distantes dos grandes centros urbanos.

Durante um ano e meio, os saraus da periferia ocorreram numa fábrica abandonada em Taboão da Serra, município de São Paulo, e agora acontecem no bar de José Cláudio Rosa, mais conhecido como Zé Batidão, todas às quartas-feiras, das oito até meia noite, no bairro de Piraporinha, zona Sul de São Paulo. A atração reúne, semanalmente, cerca de 400 pessoas.

Em outubro deste ano, ao completar 16 anos de atividades poéticas, a Cooperifa comemorou realizando sua 10° Mostra de Cultura Periférica. A ocasião contou com um bate-papo no Sesc Campo Limpo, e teve as participações do escritor e jornalista Xico Sá, do ator e diretor Wagner Moura, e também do fundador do projeto, Sérgio Vaz. Dentre os temas debatidos, tiveram destaque a cultura produzida na periferia e a questão da democracia.

Wagner Moura destacou a relação entre a cultura de democracia. “Não existe democracia sem cultura. Pode existir cultura sem democracia, se a gente entender cultura como produção de sentido, como qualquer coisa que não seja da natureza. A democracia só existe com cultura, por que ela faz parte fundamental da democracia”, afirmou.

Sérgio Vaz aprofundou ainda mais o tema, destacando a necessidade de reivindicação por questões elementares. “A nossa arte não é nem por democracia, ainda é por cidadania, e por direitos humanos. Estamos lutando ainda contra o genocídio brasileiro, contra pobreza, contra a fome, e a violência policial.”

Vaz destacou ainda o papel dos saraus no resgate da cultura periférica. “A nossa cultura está resgatando a nossa humanidade, porque as pessoas não estão tirando só o nosso dinheiro, estão tirando nossa humanidade, o que é pior. A Cooperifa é só um tijolo nessa ponte. As pessoas que trabalham na Cooperifa, que circulam, são vários movimentos que se fundem.”

Wagner Moura, por sua vez, afirmou que a periferia deve se inspirar na luta de Carlos Marighella, líder guerrilheiro que atuou na época da ditadura, na década de 1960, e que é tema do filme que está sendo rodado pelo ator e diretor.

“Eu quero que as pessoas que vivem na periferia olhem para Marighella e digam, ‘esse cara me representa, esse cara é um herói, negro e brasileiro, eu entendo o que ele fez e ele me inspira’”, afirmou.

Projeto "Talentos do Horto"

Projeto “Talentos do Horto” acolhe crianças da periferia que sonham em ser jogadores de futebol

Fotos - Anderson Rodrigues

Projeto “Talentos do Horto” acolhe crianças da periferia que sonham em ser jogadores de futebol

Periferia em movimento


Por Ingrid Miranda

Em meio a tantas manifestações que se nomeiam populares e culturais, a cultura periférica surge da ampliação do processo de urbanização, onde é possível notar, em cidades de grande e médio porte, a formação de extensas regiões periféricas, distantes das áreas comerciais e históricas dessas cidades. Geralmente, esses espaços são ocupados por trabalhadores, pessoas de baixa renda e migrantes. Esses locais costumam chamar a atenção por sua grande  população atuante, alto índice de criminalidade e formas de organizações reivindicatórias formadas pelos moradores.

Diante das informações iniciais sobre periferia, há pelo menos duas décadas vem surgindo um processo que funciona como uma espécie de representação das ideologias periféricas: a produção artístico-cultural das pessoas ali presentes, que buscam nos meios culturais uma forma de construir sua própria imagem. Meios estes compostos por ações, tais como saraus com escritores e poetas moradores destes locais, grafites, danças, batucadas e músicas, que simbolizam o espaço da periferia.

A mídia oferta seu próprio significado de cultura-produto de ‘periferia’, ela impõe e reproduz conceitos de próprios de periferia, como foi mostrado em uma reportagem de Cecília Flesch para a Globo News, que levantou uma discussão sobre o comportamento dos ‘consumidores de cultura’. Constrói a sua ‘arte de fazer’ dos produtos culturais e comunicacionais. São fluxos culturais de negociação que são construídos através de um aprendizado na periferia, sobre um saber fazer comunicativo, provocando um processo de empoderamento capaz de causar deslocamentos na estrutura do poder.

Diante da posição que a mídia implica sob a cultura de periferia, onde esses artistas que representam suas raízes se encaixam? Sabemos que esses processos culturais começaram com o objetivo de representar o que o artista é, onde vive, onde mora. E hoje, o que e quem representa a periferia? Aqueles que se destacam na mídia ainda sabem de onde vieram?

Em entrevista concedida a Lucas Nascimento, no ano passado, publicada na plataforma livre para escritores e jornalistas, Blasting News, o cantor de rap Projota, relatou uma frase interessante: “Eu acho que as pessoas nunca podem esquecer quais são suas raízes”. Mas será que realmente esses cantores, que em boa parte de suas letras, se mantiveram sempre representando suas origens, hoje, coma ascensão na mídia, continuam a representar? Quando um artista como Projota, diz em um programa de televisão, como o Encontro com Fátima Bernardes, ter passado por uma depressão por ‘sentir vergonha de fazer sucesso’, mostra que até mesmo àquele que prometeu pra si mesmo nunca deixar suas raízes de lado, lá no comecinho da carreira, de um jeito ou outro, pode ser influenciado pelo sucesso.

Como se projetar na mídia e não abandonar aquilo que te levou ao topo? Talvez esta seja a pergunta mais difícil de fazer a esses artistas. Quando outro rapper, Rashid, diz em uma de suas letras que ‘afinal conseguimos chegar sem atalho, tem quem chame de sorte, mas não tem jeito. O nome disso é trabalho’, em sua última música de trabalho ‘Sem Sorte’, nos soa como alguém que já alcançou seus objetivos. Mas você, leitor, me pergunta quem é Rashid? Talvez um nome ainda não muito conhecido, apenas por aqueles que realmente apreciam esse tipo de representação artística cultural, ou aqueles que também vieram de lá, do mesmo lugar que o cantor, da periferia. Aqueles que sabem como ele, como é passar por tudo que possam ter passado e ainda ser vistos como pobres coitados pela mídia, por quem padroniza a sociedade.

A cultura por muito tempo foi vista como algo elitizado, tendo em vista somente lugares como museus, por exemplo, como acesso à cultura. A sociedade em si, demorou certo tempo para aceitar manifestações como saraus, se encaixando no perfil de cultura. Claro que, são perfis diferentes, com propostas e públicos diferentes. Mas todos são manifestações de processos culturais. Rose Hikiji, professora de antropologia da USP e estudiosa da cultura da periferia, em entrevista à Folha de S.Paulo, pontuou. “Por muito tempo, as políticas públicas tentaram tornar a cultura acessível. Houve uma inversão. Percebeu-se que já havia práticas culturais enraizadas, como o samba e as danças de rua, que precisavam ser desenvolvidas.”

São dos talentos, das danças, das músicas, dos ritmos que a periferia precisa. É de quem represente, mas também não abandone. É de quem não se deixe influenciar por qualquer conversa fiada de um produtor que te promete o mundo. É de quem sonhe sem tirar os pés do chão. De quem saiba a hora certa de escalar, e quando chegar ao topo, se dar por satisfeito de estar ali. Sempre sonhar por mais, mas nunca se esquecer de sonhar pelos outros. Talvez seja mais disso que essas pessoas precisem de pessoas que saiam do quadrado, mas saibam voltar para buscar o resto. Aliás, resto que não é pouco, o resto de molecada, que querem sonhar também.

12 de novembro de 2017

Fotos - Samils

Fotos - Gabriela

Fotos - Diego Marques

Fotos - Anderson Rodrigues