15 de outubro de 2017

O caos que me divide

Jorge Henrique e Fernando Pereira

Nesta manhã de domingo, descanso um pouco mais. Acordar cedo todos os dias é preciso por causa da minha agenda que está sempre lotada. Não é todo dia que tenho a oportunidade de dormir até tarde. O dia ainda não amanheceu e minha jornada já começa. Dou um beijo de bom dia na minha esposa, vejo se meus filhos estão bem, e vou até o banheiro.

Concentro-me no café da manhã e leio as primeiras notícias que os jornais abordam para me manter informado. Esses jornais sempre colocam notícias escandalosas, oportunistas... Abutres, sempre de olhos na carnificina que estão gerando. Mas não é qualquer jornal ou notícia que vai me derrubar. Agora inventaram esse assunto de público ou privado... Que discussão tola e insignificante.

A propaganda das obras que tenho recentemente visto pela cidade está surtindo efeito. Algumas pessoas sempre são do contra, mas independentemente, em cada canto que vou, sempre há alguém que elogie.

Observo as pessoas ao meu redor no trabalho e vejo o quanto se dedicam pela cidade. Assessores, correligionários, técnicos e burocratas. Todos se desdobram para abrir caminhos, pensar a cidade, receber críticas... Tem ainda o lado de inaugurar obras, correndo de um canto para o outro da cidade, em questão de minutos, que não é nada fácil.

Em meio a esse corre-corre, contemplo o outro lado do muro. O espaço da cidade ocupado pelos que reclamam. É difícil viver assim. Sem condições mínimas, sem moradia, sem emprego, sem esperança... Mas é ali que vive um líder comunitário. Seu nome é Beto. Foi ele que construiu sozinho uma pequena área de lazer para crianças, em um espaço público abandonado pelas gestões anteriores. Na época, coisa de uns dois anos, a alegria foi notável no olhar de cada munícipe.

Agora a situação mudou. O parque cresceu e atraiu mais movimento. Trouxe gente de todo tipo. Mas, com o olhar duro da nova gestão, a área vai ser retomada. Ali vai passar uma estrada, que levará o parque para um futuro incerto.

Beto não gostou nada da ideia. Conclamou a população, fez barricada e armou a resistência. A polícia foi chamada. Não tiveram dó e nem piedade. O gás lacrimogênio invadiu o pulmão das crianças, das mulheres e idosos que esboçaram resistência. O líder comunitário não fraquejou. Enfrentou a guarda com peito aberto. Desafiou a lei, pensando no bem comum. Se exaltou. Foi ferido com um hercúleo golpe de cassetete na cabeça. A correria e o pânico se instalaram no local.

Beto foi conduzido ao hospital, onde chegou em estado grave. Ainda não se sabe o que vai ser dele. Ao ver essa situação, minha cabeça dá um nó. Passo noites sem dormir. Nesse curto tempo de gestão, presenciei os meses mais difíceis da minha vida, onde o meu trabalho corroeu cada vestígio de paz dentro de mim.

Foram conquistas acobertadas por pesadelos. Agora, vivo o maior deles: dividir o meu dia ao volante, conduzindo o prefeito, refreado pela situação grave de um irmão.