15 de outubro de 2017

Coletivo cultural faz defesa da cultura gratuita

Karina Batista

A comunidade cultural Quilombaque é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 2005 por moradores de Perus, bairro periférico de São Paulo. O coletivo tem o intuito de levar arte e cultura para a região, como teatro, música, e outras diversas atividades. Não só no espaço onde fica a Quilombaque, como em praças e ruas do bairro e outras ocupações como a Caióba e a casa do Hip Hop.
José Queiroz, conhecido como Soró, é o coordenador da organização desde 2008 e sempre esteve envolvido com a cultura e vários projetos. É respeitado pelos moradores de Perus pela sua luta pela cultura pública.
Além de coordenar o Quilombaque, Soró também trabalha na Agência de Desenvolvimento Social, que é formada por profissionais de diversas áreas, que vêm desenvolvendo uma metodologia de inclusão e educação para a autonomia e emancipação de crianças, jovens, famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade grave. Confira a seguir os principais momentos da entrevista concedida ao Conexão Foca.

Conexão Foca - Qual o objetivo do coletivo?
José Soró - Fomos focando na ideia de um plano de inclusão social, em desenvolvimento local sustentável, era pensar não somente em meio ambiente, mas também na questão da miséria na periferia. O que nos motiva são os desafios que existem na periferia com relação à miséria, fundamentalmente. Fomos delineando que a arte e cultura tinham esses potencias e possibilidades de mudar algo. Trabalhamos para inverter isso [o estigma social de que na periferia só tem problema], inverter o olhar negativo que existe sobre a comunidade, tanto de quem está de fora, como de quem vive nela.

Conexão Foca - Quais projetos a Quilombaque oferecem?
José Soró - Aqui na Quilombaque são: capoeira, percussão, jongo, sarau e um grupo de artesanato chamado Arteferia. O sarau, por exemplo, se apresenta nesse espaço e em diversos outros. E tem as parcerias de grupos que acolhemos como grupos de grafites e coletivos de Djs. Neste ano, para ser mais especifico, não estamos usando esse espaço por problemas internos, como a falta de água. Estamos com projetos de melhoria, montando um sistema para pegar água do outro lado. Por esses problemas, não estamos usando esse espaço. Queremos focar [também] em outras ocupações como a Caióba e a casa de Hip Hop.

Conexão Foca - Qual a importância das comunidades para a sociedade?
José Soró - É importante trazer arte e cultura, informação e conhecimento para as pessoas, principalmente jovens. Ou seja, cultura é fundamental e de extrema importância na vida de qualquer individuo.

Conexão Foca - Como o coletivo é financiado?
José Soró - Se colocar no papel todos os gastos do coletivo, daria uns dois mil reais por mês, com aluguel, água, internet e outras despesas. Quando não conseguimos esse dinheiro, com atividades, pagamos do nosso bolso mesmo. Mas normalmente fazemos atividades, e com o dinheiro que ganhamos com a venda de comes e bebes, juntamos para manter o coletivo. Aperta um mês ali e outro aqui, mas vamos seguindo. Somos uma organização sem fins lucrativos, nunca pensamos em ganhar dinheiro com isso. O objetivo é e sempre foi levar arte e cultura gratuita pra quem está dentro da periferia e atingir quem está fora dela também.

Conexão Foca - Quais as maiores dificuldades enfrentadas pela Quilombaque?
José Soró - Somos uma comunidade muito respeitada e conquistamos isso, primeiro com independência. Nunca nos “amarramos” com nenhum partido político, pessoas ou candidatos. E também dentro da dinâmica territorial, nós não nos aliamos com qualquer grupo, para ser mais claro, não dialogamos com o crime. Que dentro dessas comunidades carentes é o que muitas vezes existe. Não é que renegamos ou aceitamos. Sabemos que existem, inclusive, com poder econômico. Mas sempre focamos nisso, nunca aceitar dinheiro do crime. Não temos um conflito, eles sabem a nossa opinião sobre o assunto, que não leva a nada e que é errado, porém, não levo um discurso moralista, já que muitas pessoas acreditam que os jovens vão para a criminalidade por falta de opções ou por vontade própria. Em minha opinião, existe um dado que é muito revelador: o desemprego. O desemprego na juventude é muito grande, e na periferia a má formação e a má qualidade técnica impedem os jovens de seguir outros caminhos. Você não tem que aceitar e sim compreender a situação, que existe, que é real, e a sociedade muitas vezes finge ou não quer enxergar. O que tentamos fazer aqui também é mostrar para esses jovens que com arte e cultura pode haver outras possibilidades.

Conexão Foca - O que acha da política atual?
José Soró - Bom, viemos discutindo uma planta que acabou virando plano municipal de cultura, que é a política pública que prevê iniciativas individuais e sustentação. Por exemplo, começaram a surgir vários espaços como a Quilombaque. Conseguimos com a administração Haddad a realização do VAI 2 (programa para valorização das iniciativas culturais), que permite construção, reformas, aluguel e outras coisas. Então, tem uma série de programas com o intuito de criar um sistema sustentável, para que no fim, o artista tenha tranquilidade de fazer aquilo que ele gosta de fazer, a arte. Mas quando pensamos que já teríamos conquistado algo, que estaríamos em melhores condições, vem um Doria, destruindo tudo o que alcançamos.

Conexão Foca – Você vê melhorias nas mudanças do atual prefeito?
José Soró – Não. Absolutamente, tudo que você imaginar sobre a gestão Doria, somos contra. Vou te dar um exemplo: no caso dos grafites, o que eles fazem é arte, e aí o prefeito proíbe, apaga e determina um espaço para os grafiteiros fazerem seu trabalho. Isso não existe. Não é ele que tem que definir isso, e sim os grafiteiros que definem seu lugar e sua arte.

Conexão Foca - A Comunidade Cultural Quilombaque apoia manifestações? Participam, direta ou indiretamente?
José Soró - Apoiamos, e não só apoiamos como vamos pra rua “brigar”, lutar até o fim. Estamos sempre em manifestações, inclusive com o Frente Única de São Paulo, contra o congelamento da cultura, tanto em reuniões internas como em atos na rua.

Conexão Foca - A privatização é positiva ou negativa para as comunidades culturais?
José Soró - Negativa. A privatização nada mais é que eles destruírem a estrutura pública e em cima disso justificar a privatização. Vendem aquilo que é nosso. É uma grande bobagem dizer que os serviços públicos não funcionam. Funcionam, mas óbvio que precisam de melhorias, só que ao invés de tentar melhorar preferem privatizar.

Conexão Foca - Qual a sua opinião sobre a privatização?
José Soró - Não é questão de ser contra a privatização, acho que é mais uma questão ideológica. Com qual intencionalidade você faz essa transferência. Eu defendo os princípios de que a cultura é de um direito essencial para o povo e que é de dever do Estado fazer isso.

Conexão Foca - O que pode ser feito para defender e manter a arte e cultura pública?
José Soró - Defendemos que não é preciso sair construindo centros culturais. Pode haver estímulo para uma ocupação adequada, por exemplo. Tem muitos espaços bons abandonados. Hoje temos 26 ocupações culturais na cidade. A própria Quilombaque é uma ocupação, com capacidade de funcionamento e produção. A quantidade de produção artística cultural feita aqui é bem maior do que o poder público poderia fazer. Então, qual é a defesa? Apoiar centros como estes, garantir a infraestrutura dele como, água, luz, inclusive a própria programação. Daria muito certo.